Pesquisadores da Universidade Federal do Piauí (UFPI) identificaram evidências arqueológicas no espaço conhecido como “Porão da Ditadura”, localizado na Central de Artesanato Mestre Dezinho, no Centro de Teresina. O levantamento técnico foi realizado neste mês de abril. Segundo a equipe, esta é a primeira vez que o local passa por uma análise sob a ótica da arqueologia forense.
Investigação no subsolo
A investigação se concentrou em um cômodo subterrâneo do imóvel, acessado por um alçapão. A bioarqueóloga Cláudia Cunha, que coordena o grupo, explicou que o próximo passo será a coleta de amostras para verificar a origem de manchas encontradas no local, que podem ser de sangue. “Esta é a primeira vez que o porão é analisado na ótica da Arqueologia Forense. Ainda vamos coletar essas amostras, pois estamos esperando a chegada dos kits de coleta”, afirmou a professora.
Manchas reveladas por luz ultravioleta
As manchas foram identificadas com o uso de luz ultravioleta, já que não são visíveis a olho nu. De acordo com a equipe, o cenário levanta a hipótese de que elas possam ser vestígios de sangue ligados a episódios de violência relatados em estudos históricos e em depoimentos de presos durante a ditadura militar.
Análise técnica do espaço
A professora Cláudia Cunha afirmou que o estudo reuniu análises arquitetônicas, arqueológicas e bioarqueológicas para compreender a estrutura e o possível uso do local ao longo do tempo. A pesquisa indicou que o cômodo possui características compatíveis com construções institucionais brasileiras entre as décadas de 1940 e 1970. Entre os elementos identificados estão granilite nas escadas, marmorite nas paredes e ladrilho hidráulico no piso.
A equipe também alertou para o risco de descaracterização do espaço. “Atualmente, o espaço encontra-se ameaçado de destruição por projetos de reforma arquitetônica do local”, disse a pesquisadora. “Diante da relevância histórica e potencial valor probatório do local, a equipe técnica recomenda a preservação do espaço até a realização de estudos mais detalhados no âmbito da Arqueologia Forense e da Arqueologia Histórica”, completou.
Histórico do prédio
O edifício onde funciona a Central de Artesanato Mestre Dezinho tem uma longa trajetória histórica. A construção ocorreu entre 1844 e 1852, durante a transferência da capital do Piauí de Oeiras para Teresina. No século XIX, o local abrigou o Estabelecimento de Educandos Artífices do Piauí. Em seguida, passou a sediar o Quartel do Comando Geral da Polícia Militar, função que exerceu por mais de 100 anos. Durante a ditadura militar no Brasil, entre 1964 e 1985, o prédio foi usado como espaço de detenção política. Registros históricos e relatos de vítimas indicam que o local também foi cenário de repressão e tortura.



