O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) negou, em caráter liminar, o pedido de habeas corpus apresentado pela defesa da influenciadora Deolane Bezerra contra sua prisão preventiva. Os advogados agora aguardam o julgamento do mérito e avaliam recorrer ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). A decisão, proferida neste domingo (24), ocorre um dia após o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), rejeitar um pedido de prisão domiciliar, por entender que não houve "manifesta ilegalidade" na prisão.
Contexto da prisão
Deolane Bezerra foi presa preventivamente na última quinta-feira (21) durante uma operação conjunta da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo que investiga um esquema de lavagem de dinheiro supostamente ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A influenciadora nega as acusações e afirma que foi presa por ter exercido a profissão de advogada em um serviço pelo qual recebeu R$ 24 mil de um cliente. Ela declarou que "a justiça será feita".
Investigação teve início em 2019
A apuração começou em 2019, quando agentes penitenciários encontraram bilhetes manuscritos escondidos em celas e na caixa de esgoto da Penitenciária II de Presidente Venceslau, no interior paulista. O material continha ordens internas do PCC, contatos de integrantes da facção e referências a ações violentas contra servidores públicos. Segundo a investigação, os documentos levaram à abertura de três inquéritos que permitiram mapear a estrutura financeira da organização criminosa. A partir da análise dos manuscritos, os investigadores chegaram a uma transportadora de cargas com sede em Presidente Venceslau, próxima ao complexo penitenciário, que seria usada como empresa de fachada para movimentar dinheiro da facção.
Esquema de lavagem de dinheiro
De acordo com o Ministério Público e a Polícia Civil, a transportadora fazia repasses para contas de terceiros para ocultar a origem do dinheiro do PCC. Duas dessas contas estariam em nome de Deolane. A investigação aponta que parte das movimentações ocorria por meio de depósitos fracionados em espécie, saindo do caixa da facção e passando pela transportadora antes de chegar às contas ligadas à influenciadora. Os investigadores afirmam que o esquema envolvia uma rede complexa de movimentações entre contas de pessoas físicas e jurídicas, numa etapa conhecida como “dissimulação”, usada para afastar o dinheiro de sua origem criminosa. O delegado Edmar Caparroz, responsável pela investigação, disse que o PCC utilizaria a projeção pública e o patrimônio de Deolane para dar aparência de legalidade aos recursos ilícitos.
Ligação com Marcola
A Polícia Civil afirma que o principal elo entre Deolane e Marcola, líder do PCC, seria Paloma Sanches Herbas Camacho, sobrinha do chefe da facção, que mora em Madri, na Espanha. Segundo a investigação, Deolane também manteria vínculos pessoais e comerciais com um dos gestores fantasmas da transportadora usada no esquema. Os investigadores afirmam ainda que não identificaram prestação de serviços compatível com os valores recebidos pela influenciadora. Além de Marcola e Paloma, também foram alvos da operação: Everton de Souza, conhecido como “Player”, apontado como operador financeiro da facção; Alejandro Camacho, irmão de Marcola; e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, sobrinho do líder do PCC.
Risco de fuga justificou prisão preventiva
A Justiça decretou a prisão preventiva da influenciadora após apontar risco de fuga. Segundo o processo, Deolane havia retornado ao Brasil na véspera da operação após passar semanas na Europa. Os investigadores também destacaram que integrantes da família de Marcola haviam deixado o país durante as investigações — uma sobrinha foi para a Espanha e um sobrinho fugiu para a Bolívia. O nome de Deolane chegou a ser incluído na Difusão Vermelha da Interpol, mecanismo usado para alertar autoridades internacionais sobre procurados.
Outras investigações
Esta é a segunda prisão de Deolane em menos de dois anos. Em 2025, ela já havia sido alvo de uma investigação da Polícia Civil de Pernambuco sobre lavagem de dinheiro relacionada a empresas de apostas online. Segundo aquela investigação, Deolane teria investido mais de R$ 65 milhões em carros e imóveis de luxo usando recursos ligados ao setor de bets.
Relatório policial
Em um dos trechos do inquérito obtido pela TV Globo, a Polícia Civil classifica Deolane como integrante do PCC, com papel “central” na estrutura financeira da facção. O documento afirma: “Deolane Bezerra dos Santos é hoje uma das mais importantes pessoas integrantes do vasto e diferenciado esquema de lavagem de capitais gerido pela organização criminosa.” Apesar disso, a investigação diz que ela não teria sido “batizada” formalmente na facção e não possuiria apelido dentro do PCC.
Quem é Deolane Bezerra
Deolane Bezerra ganhou projeção nacional após a morte do marido, o funkeiro MC Kevin, em 2021. Depois disso, ampliou sua presença nas redes sociais, passou a participar de programas de TV e investiu em publicidade digital e apostas online. Ela acumula mais de 21 milhões de seguidores no Instagram e costuma publicar conteúdos ostentando carros de luxo, viagens e mansões em Alphaville. O filho adotivo da influenciadora, Giliard Vidal dos Santos, conhecido nas redes como “Chefinho”, também foi alvo de busca e apreensão na operação. Segundo a polícia, ele aparecia frequentemente ostentando carros, joias, helicópteros e viagens internacionais nas redes sociais.



