Quase mil médicos foram vítimas de agressões no estado do Rio de Janeiro desde 2018, segundo levantamento do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj). Os dados, divulgados pelo RJ2 nesta quinta-feira (7), revelam uma rotina silenciosa de violência nos hospitais e unidades de saúde fluminenses.
Perfil das vítimas
As mulheres são as principais afetadas. Entre 2018 e 2025, foram registradas 89 agressões físicas, sendo 60 contra mulheres; 459 agressões verbais, das quais 297 tiveram médicas como vítimas; e 208 casos de assédio moral, sendo 121 contra mulheres. Os registros foram feitos por meio do Portal Defesa Médica, plataforma criada para receber denúncias de ataques contra profissionais da saúde.
Relatos de violência
A médica Amanda Gil foi agredida durante um plantão noturno. Ela conta que, ao reavaliar um paciente às quatro da manhã, a mãe do paciente exigia um exame de imagem. “Eu expliquei que ia solicitar, mas precisava de autorização de outro hospital. Ela não acreditou em mim”, relatou. A acompanhante a atacou fisicamente dentro da unidade. “Ela montou em cima de mim na maca, mordeu, arranhou, bateu. Eu tive que fazer corpo de delito”, disse. Devido à agressão, Amanda abandonou o plantão de pediatria.
Caso no Hospital de Irajá
Em julho de 2023, a médica Sandra Rodrigues foi agredida por pai e filha que buscavam atendimento para um corte no dedo no Hospital de Irajá, na Zona Norte do Rio. Enquanto era atacada, uma paciente de 82 anos que estava na sala vermelha morreu de insuficiência cardiorrespiratória. “Eu fiquei com uma lesão de bacia porque passei praticamente 10 meses com dificuldade para andar. Hoje tenho dor crônica”, afirmou.
Medidas de segurança
O caso motivou a criação de uma resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) que estabelece normas de segurança para ambientes hospitalares. Entre as medidas estão: criação de rotas de fuga, espaços de refúgio para profissionais e instalação de botão de pânico nas unidades. Sandra Rodrigues afirma que algumas mudanças foram implementadas, mas a maior parte da rede pública ainda não oferece segurança adequada. “Em um dos lugares onde eu trabalho mudou bastante coisa. Tem botão de pânico e segurança. Mas a grande maioria da rede não mudou. Pelo contrário: a precarização dos contratos piorou a capacidade do profissional registrar a agressão porque ele é ameaçado para não registrar”, disse.
Impacto na profissão
O médico Raphael Câmara, relator da resolução do CFM, afirma que a violência afasta profissionais de áreas consideradas de risco. “A agressão contra médicos provoca afastamento de profissionais. Aqui no Rio é muito difícil encontrar médicos para trabalhar em algumas comunidades porque eles são ameaçados e colocados em risco”, declarou. O presidente do Cremerj, Antônio Braga, defendeu medidas mais rígidas para proteger os profissionais da saúde. “É preciso dar um basta na violência contra os médicos. Sem segurança não haverá médicos, e sem médicos não teremos saúde”, afirmou.



