ONG de empresária ligada a Bolsonaro usou notas fiscais canceladas em contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de SP
ONG ligada a Bolsonaro usou notas canceladas em contrato milionário com SP

A empresária Karina Ferreira da Gama, proprietária da ONG Instituto Conhecer Brasil e da produtora que realiza o filme sobre Jair Bolsonaro, está sob investigação do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Civil. A organização possui um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalar pontos de wi-fi gratuitos na periferia. Uma análise do g1 nas prestações de contas revelou que a ONG apresentou ao menos R$ 16,5 milhões em notas irregulares para justificar despesas do contrato.

Notas canceladas e faturas sem valor fiscal

O levantamento identificou o uso de notas milionárias canceladas no site da própria prefeitura, além de recibos e notas sem valor fiscal para justificar gastos de até R$ 4,3 milhões em uma única fatura. Em 2024, a ONG contratou a Make One Tecnologia Digital Ltda. para locação de equipamentos eletrônicos e apresentou quatro faturas de R$ 8,5 milhões, que não possuem valor fiscal por não terem sido registradas no sistema de nota fiscal eletrônica municipal.

Outro caso envolve a Complexsys Soluções Integradas Ltda., cujo proprietário, André Feldman, aparece em fotos ao lado de Karina. Em novembro de 2025, a empresa emitiu uma nota fiscal de R$ 2 milhões, que foi cancelada no mesmo dia, conforme registros municipais. Apesar disso, a nota foi incluída na prestação de contas de fevereiro deste ano. A Complexsys também presta serviços ao gabinete do deputado federal Mário Frias (PL), produtor-executivo do filme “Dark Horse” sobre Bolsonaro.

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Notas da própria ONG e parecer técnico

A documentação inclui notas emitidas pelo próprio instituto para si mesmo, totalizando mais de R$ 1,4 milhão. Um parecer da Secretaria de Tecnologia, de fevereiro de 2026, aponta que a instituição não pode emitir notas para si própria e que há R$ 925 mil em pagamentos em duplicidade. O parecer considera a não devolução dos valores como irregularidade grave, mas a pasta aprovou a prestação de contas com ressalvas, condicionada à restituição de R$ 930 mil.

A gestão Ricardo Nunes afirmou que a empresa devolveu integralmente os R$ 930 mil e que o contrato foi renovado para instalação dos 1.800 pontos restantes. Atualmente, 3.200 pontos estão instalados.

Relações políticas e contrato sob suspeita

Karina prestou consultoria para a campanha de Mário Frias em 2022, recebendo R$ 54 mil. A empresa dela funciona no mesmo endereço da ONG e da produtora. Frias destinou cerca de R$ 2 milhões em emendas para o Instituto, em investigação no STF por falta de transparência. A equipe do deputado não comentou.

Além disso, um contrato de R$ 12 milhões com a Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda. apresentou problemas: o dono, Alex Leandro Bispo dos Santos, está preso por feminicídio, e o contrato inicial não tinha sobrenome ou CPF. Após denúncia, a empresa mudou de sócio para Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes, que mora no mesmo endereço de Alex. Karina negou reconhecer o contrato, mas o documento estava no drive usado para prestar contas à prefeitura.

Defesa de Karina e da prefeitura

Karina disse desconhecer as notas canceladas e que apontou os problemas das notas do próprio instituto. Confirmou serviços para Frias apenas em 2022 e afirmou que as emendas são para projetos sociais no interior. A Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia defendeu o monitoramento rigoroso do contrato e disse que os R$ 930 mil foram devolvidos. Negou relação entre o contrato e a produção do filme, afirmando que o acordo foi fechado antes do início das filmagens.

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