A Polícia Civil do Amazonas indiciou o médico Orlando Ignacio Aguirre pelo crime de homicídio culposo pela morte de Pedro Henrique Falcão Soares Lima, de 1 ano e 3 meses. A criança faleceu em 11 de dezembro de 2025, após procedimento cirúrgico de fimose no Hospital Municipal Maternidade Eraldo Neves Falcão, em Presidente Figueiredo, no interior do estado. A mãe, Stefany Falcão Lima, atribui a morte a um erro na dose de anestesia aplicada pelo médico. O g1 tenta contato com a defesa de Orlando.
Investigação aponta negligência
Segundo o inquérito policial, a investigação concluiu que o médico agiu com negligência e descumpriu protocolos técnicos durante o procedimento anestésico. Entre as irregularidades estão a falta de monitoramento adequado da criança e falhas em procedimentos obrigatórios de segurança. O boletim de anestesia registrou a ausência de um capnógrafo, equipamento essencial para monitorar a respiração e os níveis de dióxido de carbono do paciente durante a anestesia.
O inquérito também aponta que o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) não tinha as assinaturas do médico e do responsável antes da cirurgia. Além disso, a avaliação pré-anestésica não foi realizada na véspera do procedimento, como previsto nos protocolos. A polícia destacou ainda que o hospital não comunicou a morte às autoridades no dia do ocorrido, e a Declaração de Óbito foi assinada pelo próprio médico investigado, configurando conflito de interesses.
Próximos passos legais
Após concluir o inquérito, a Polícia Civil indiciou Orlando Ignacio Aguirre por homicídio culposo. O caso será analisado pelo Ministério Público do Amazonas (MPAM), que decidirá se apresenta denúncia à Justiça. A defesa da família de Pedro Henrique classificou o indiciamento como um avanço, mas informou que pedirá ao Ministério Público a mudança da tipificação para dolo eventual, quando o profissional assume o risco de matar.
Tentativa de registro de especialista negada
O inquérito revela que, após a morte da criança, o médico tentou registrar o Título de Especialista em Anestesiologia no Conselho Regional de Medicina do Amazonas (Cremam). O pedido foi negado em março de 2026. No dia da cirurgia, Orlando não possuía o Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em anestesiologia oficialmente registrado, embora atuasse na função.
Laudo do IML aponta causa indeterminada
O laudo de exame necroscópico do Instituto Médico Legal (IML) aponta causa indeterminada para a morte. Pedro recebeu atracúrio, ketamina e propofol antes do procedimento. Após a aplicação, os sinais vitais caíram e a criança morreu. O corpo foi exumado 30 dias depois, já em avançado estado de decomposição, impedindo a coleta de amostras para exames toxicológicos e histopatológicos. O perito destacou que a traqueia estava livre de obstruções, afastando hipóteses de bloqueio mecânico.
Relato da mãe e falhas no atendimento
A mãe relatou que a criança foi levada inicialmente à Unidade Básica de Saúde (UBS) com dores no ouvido. O pediatra identificou fimose e iniciou tratamento. Dias depois, a criança foi encaminhada ao hospital para cirurgia. Stefany afirma que o anestesiologista iniciou a intubação sem ventilação adequada e não pediu ajuda imediatamente. "Ao notar que a saturação e os sinais vitais estavam caindo, eu mesma pedi para a enfermeira chamar o pediatra. O anestesiologista não pediu ajuda de forma proativa", disse.
Documentos obtidos pelo g1 apontam que o pediatra chegou à sala e iniciou manobras de reanimação. Durante o atendimento, questionou o anestesiologista sobre as medicações, mas não obteve resposta imediata. O profissional também registrou que a sala não estava preparada para atender pacientes pediátricos.
O diretor clínico da unidade, Daniel Mota, confirmou que o anestesiologista começou a atuar no hospital entre 2020 e 2021, após processo seletivo. O médico pediu exoneração após o caso. "A nossa função é dar esclarecimentos. A mãe já tem acesso a prontuários e documentação. Foi uma decisão dele pedir exoneração. Segundo ele, não tinha mais condições psicológicas de continuar", explicou.



