A ex-modelo francesa Juliette, hoje com 43 anos, decidiu contar publicamente como escapou de Jeffrey Epstein há mais de 20 anos. Seu relato surge após a procuradora Laure Beccuau revelar à rádio RTL que novas potenciais vítimas do milionário procuraram a promotoria de Paris. Duas investigações avançam na França sobre violência sexual e aspectos financeiros ligados à rede de Epstein.
Novos testemunhos emergem
Quatro meses após a divulgação dos “Epstein Files” pela justiça dos EUA, novos testemunhos continuam surgindo. Na França, ao menos dez potenciais vítimas se apresentaram à promotoria de Paris, conforme informou a procuradora Laure Beccuau. Entre elas está Juliette, que, aos vinte e poucos anos, cruzou o caminho de Jeffrey Epstein sem saber quem ele era e conseguiu escapar antes de ser capturada pela engrenagem de exploração sexual.
O encontro em Paris
Juliette guardou quase tudo daquela época: o book, e-mails, anotações e a agenda onde escreveu à mão os contatos de Epstein e de Daniel Siad, um recrutador de modelos. Anos depois, descobriria que Siad era suspeito pelo FBI de identificar e recrutar jovens para o milionário. Foi ele quem a abordou em Paris, em 2004, entre dois castings, oferecendo “oportunidades” em Nova York. Sua agência confirmou que Siad era “confiável”. Juliette aceitou.
Ela recebeu imediatamente uma passagem e instruções para solicitar apenas um visto de turista. “Me deram o endereço de um apartamento em Nova York. Não sabia se era ligado a uma agência. Não me deram detalhes, nem horários, nada. Presumi que era profissional. Se não me davam informações, era porque não havia perguntas a fazer.”
O primeiro encontro: passaporte retido e mal-estar
Ao chegar a Nova York, Juliette encontrou Epstein rapidamente. Ele não tinha “tempo para recebê-la”, tomou seu passaporte e marcou para o dia seguinte. Sua mãe, desconfiada, ligou para alertá-la sobre o risco de uma rede de tráfico sexual. Juliette hesitou, mas decidiu voltar: “Nada tinha acontecido. Eu tinha um objetivo: conseguir contrato.”
Epstein tentou deixá-la à vontade, mostrou o apartamento, apresentou um estúdio que não parecia profissional. Fotos de close de partes íntimas de mulheres cobriam paredes. “Olhei com curiosidade e pensei: que fascinação é essa? Achei inadequado. Comecei a me sentir mal.” Ele a conduziu por um corredor com quartos. Sentou-se na cama e fez sinal para que ela se aproximasse. Juliette parou na porta: “Te aviso, não vou fazer nada.”
Epstein recuou, disse que só queria “avaliar” se poderia apresentá-la às agências. Ela entrou. Ele pediu que ficasse de roupa íntima – comum no meio – mas também que tirasse o sutiã, o que não era. Epstein a examinou, tocou suas coxas, quadris, nádegas. Disse que ela “não estava pronta”, que precisava perder peso e que levaria três meses até ser apresentada às agências. Ofereceu acesso a academias e “pequenos trabalhos” enquanto esperava: aeromoça em jato privado, acompanhante à noite. Foi aí que Juliette entendeu o risco.
A fuga
Juliette se vestiu, pediu o passaporte e disse que pensaria. “Acho que ele sentiu que eu não ia permitir, ou que eu tinha entendido como funcionava”, relembra. Ela ficou mais alguns dias em Nova York, fez castings, mas percebeu que estava “queimada” em todas as agências. “É uma loucura.” A vergonha a acompanhou por anos. “Vergonha se fosse uma oportunidade de trabalho que perdi. Vergonha se fosse uma rede criminosa, por ter acreditado que podia ser outra coisa.”
Em 2019, ao ouvir o nome de Epstein no rádio, Juliette entrou em choque. Só então compreendeu o que havia escapado. Sua história, reconstruída com base nos documentos que guardou e no depoimento prestado à polícia francesa em 2019, revela como funcionava o processo de aliciamento do predador.
Investigações na França
As investigações abertas na França – uma sobre violência sexual, outra sobre aspectos financeiros – buscam entender como funcionava a rede de Epstein em Paris, onde ele viveu por anos. Recrutadores identificavam jovens modelos, mas também algumas em fim de carreira, oferecendo contratos internacionais. A vulnerabilidade profissional era explorada como porta de entrada.
Juliette reconhece hoje os sinais: a falta de informações, o visto inadequado, o apartamento sem vínculo com agência, o controle do passaporte, a pressão psicológica, a promessa de “oportunidades” nebulosas. “Ele testava limites. Era um processo.” Por muito tempo, Juliette não falou sobre o episódio. “Eu não sabia quem ele era. E tinha vergonha.” Hoje, aos 43 anos, ela tenta reconstruir a narrativa da própria vida. “Passei anos revendo a cena. Só em 2019 entendi de verdade.” Seu testemunho, agora público, ajuda a mapear o funcionamento da rede e a compreender como tantas jovens foram capturadas por um sistema que misturava glamour, poder e violência.



