O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) abriu inquérito para investigar a conduta do ex-secretário de Esportes, Lazer e Juventude de São Caetano do Sul, Mauro Roberto Chekin, por declarações consideradas capacitistas durante uma audiência pública na Câmara Municipal. Chekin pediu exoneração do cargo nesta sexta-feira (8) após a repercussão negativa de suas falas, nas quais chamou a inclusão de pessoas com deficiência no esporte de “problema” e afirmou que “não consegue” trabalhar com esse público.
Entenda o caso
Em audiência realizada em 29 de abril, Chekin foi questionado pela vereadora Bruna Biondi (PSOL) sobre políticas de inclusão. Em resposta, o então secretário declarou: “Hoje, com esse problema da inclusão social, que eu acho importante, acho que tem que ser feita, mas nós temos que tomar muito cuidado com os esportes”. Ele também afirmou: “Com relação ao autista, nós temos um problema muito grande com autista e qualquer [pessoa com deficiência]”.
Chekin relatou ainda um episódio em que uma mãe procurou a prefeitura para incluir a filha em aulas de natação. “Veio uma mãe que quis uma inclusão com a filha dela para ela ser incluída na aula de natação. [...] A menina usa fralda. Como é que eu posso pôr a menina dentro da água de fralda? [...] nós temos que orientar a mãe a comprar essa fralda de natação”, disse. Ele mencionou que a menina se incomodou com o barulho e “tapou os ouvidos”, e declarou que nem todos os profissionais são capacitados para atuar com inclusão.
O ex-secretário também compartilhou uma experiência pessoal durante a faculdade de educação física, afirmando que não “conseguiria” atuar na área. “Eu entrei na piscina, saí da piscina e falei: 'Se for para trabalhar desse jeito, não quero nunca mais voltar aqui'. A minha condição psicológica e física é muito frágil para esse tipo de coisa”, declarou. Ele ainda disse: “A inclusão é um dever do Estado, mas não é um dever meu, pessoa física. Eu não posso chegar e obrigar um profissional e falar assim: 'Você vai trabalhar lá'”.
Reações e consequências
A vereadora Bruna Biondi rebateu as declarações: “É a mesma coisa de a gente falar que a educação não tem que garantir a inclusão de crianças com deficiência na rede municipal ou que um professor que não quiser dar aula para uma criança com deficiência pode simplesmente não dar. É parte da profissão, é parte da formação profissional, é parte do dever se aquele funcionário trabalha para o Estado. Ele não tem opção. Nem mesmo se trabalhasse num setor privado. É discriminação.”
O Ministério do Esporte repudiou “com veemência” as falas, classificando-as como “profundamente capacitistas”. A pasta afirmou que “o esporte brasileiro deve ser espaço de inclusão, diversidade, respeito e dignidade para todos” e informou que fará contato institucional com a Prefeitura de São Caetano do Sul para oferecer orientações técnicas e materiais voltados à inclusão.
O Comitê Paralímpico Brasileiro também divulgou nota de repúdio, classificando as declarações como “discriminatórias e inadmissíveis”. O comitê destacou que “a inclusão é um direito e um compromisso constitucional e civilizatório” e lembrou que São Caetano do Sul tem história ligada ao Movimento Paralímpico nacional, tendo sido polo de treinamento de seleções brasileiras de atletismo e natação paralímpicos.
Em nota, a Prefeitura de São Caetano do Sul afirmou ter “compromisso histórico” com políticas públicas de inclusão e citou investimentos como a inauguração do Complexo Unificado de Inclusão, Desenvolvimento, Apoio e Reabilitação (Cuidar) e parcerias com instituições como APAE e AACD. A administração municipal declarou que “a pauta da inclusão exige evolução constante” e que “erros, apesar de imperdoáveis, são compreensíveis, dada a complexidade e importância desta pauta”.
Inquérito do MP-SP
O MP-SP aceitou a denúncia protocolada pela deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL) e pela vereadora Bruna Biondi. O inquérito irá apurar “eventual prática de discriminação”, “capacitismo institucional” e “omissão de políticas públicas inclusivas” no âmbito da Secretaria Municipal de Esporte, Lazer e Juventude.
Na carta de exoneração, Chekin reconheceu o “erro de abordagem do tema inclusão no esporte” e pediu “sinceras desculpas pelo ocorrido”. Ele afirmou que buscará aperfeiçoamento profissional relacionado à inclusão e que continuará trabalhando pelo esporte.



