Mãe de adolescente morto na Cidade de Deus testemunha em júri de PMs acusados de homicídio
Priscilla Menezes, mãe do estudante Thiago Menezes Flausino, de 13 anos, foi ouvida nesta terça-feira (10) durante o júri popular dos policiais militares acusados de matar o adolescente durante uma operação na Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. O julgamento acontece no Tribunal de Justiça do estado e ainda não havia decisão até a última atualização desta reportagem.
Detalhes do caso e acusações
Thiago foi morto a tiros em 2023, durante uma ação policial na comunidade. Dois PMs do Batalhão de Choque, identificados como Diego Pereira Leal e Aslan Wagner Ribeiro de Faria, respondem por homicídio e fraude processual. Segundo a denúncia do Ministério Público do Rio, os dois estavam em um carro particular durante uma operação ilegal, conhecida como Tróia, na Cidade de Deus.
Os policiais afirmaram que Thiago estaria armado e teria atirado contra eles, mas a acusação e testemunhas sustentam que não houve confronto e que o adolescente foi executado quando já estava caído no chão, de costas. Laudos periciais indicaram que não há vestígios de que Thiago tenha disparado contra os agentes.
Surpresa com fotos no celular do filho
Durante o depoimento, Priscilla Menezes afirmou ter sido surpreendida ao saber que a perícia encontrou fotos de um menor armado no celular do filho. As imagens foram apresentadas pelo assistente de acusação no plenário.
“Eu não sabia. Eu não consigo ver verdade nessas fotos, em várias delas eu não acho que é o Thiago”, afirmou a mãe. Inicialmente, Priscilla disse não reconhecer o filho em duas imagens exibidas, uma em que aparece apenas a mão de uma pessoa segurando uma arma e outra em que um jovem aparece com o rosto encoberto.
Em seguida, foi apresentada uma terceira fotografia, na qual um jovem aparece segurando o que parece ser uma arma longa, uma espingarda. Nesse momento, a mãe afirmou reconhecer o adolescente. “Ai parece o Thiago. Não sei o que é isso que ele está segurando. Não sei se é de matar rato”, disse.
Testemunhas e expectativas da família
Ao longo da sessão, testemunhas de acusação e defesa prestaram depoimento, além do sobrevivente Marcos Vinícius, que estava com o adolescente no momento dos disparos. Ele foi o primeiro a ser ouvido e afirmou que nunca viu Thiago armado e que o adolescente não portava arma no dia em que foi morto.
Antes do início da sessão, o pai do adolescente, Diego Flausino, afirmou que a expectativa da família é pela condenação dos réus. “Vamos esperar que a Justiça aconteça. Vai ser meio que um alívio. Eles têm que pagar de alguma forma”, declarou. Ao todo, são esperadas 11 testemunhas: cinco de acusação, cinco da defesa e Marcos Vinícius.
Contexto da operação e investigação
Segundo Marcos Vinícius, ele e Thiago circulavam pela comunidade na motocicleta do pai do adolescente quando perderam o equilíbrio e caíram. Enquanto tentavam levantar o veículo, foram surpreendidos por um carro descaracterizado, de onde os ocupantes saíram efetuando disparos.
A investigação apontou que Thiago foi atingido por três tiros: um na parte traseira da perna, um nas costas e outro que perfurou as duas canelas. Ainda de acordo com a investigação, nem Thiago nem o amigo tinham antecedentes criminais ou envolvimento comprovado com o tráfico.
Protestos e adiamentos anteriores
Antes do julgamento, familiares de Thiago e representantes de movimentos contra a violência policial realizaram um protesto em frente ao Tribunal de Justiça do Rio, no Centro da capital. O júri estava inicialmente marcado para o dia 27 de janeiro, mas foi adiado após divergências envolvendo uma prova apresentada pela Defensoria Pública.
O adiamento provocou revolta entre parentes e amigos do adolescente. Na ocasião, Priscilla Menezes chegou a desmaiar. No plenário, o público ficou dividido entre familiares dos policiais e parentes de Thiago, além de ativistas contra a violência policial. O pai do adolescente acompanhou a sessão vestindo uma camisa com a frase “Thiago vive em mim”.



