Investigadoração jornalística expõe abusos sistemáticos de policiais militares em São Paulo
Uma investigação detalhada realizada pelo programa Fantástico revelou uma série alarmante de fraudes processuais e abusos cometidos por policiais militares do estado de São Paulo durante o uso de câmeras corporais. A reportagem analisou 32 processos julgados pelo Tribunal de Justiça Militar do Estado, todos apurados pela Corregedoria da Polícia Militar, envolvendo ocorrências registradas entre os anos de 2021 e 2025.
Manipulação de evidências e condutas criminosas
Dos 32 processos analisados, pelo menos 26 apresentam como característica comum a manipulação ou tentativa de impedir o registro das câmeras corporais, prática que o Ministério Público classifica como fraude processual. Esses casos envolvem 75 policiais militares e resultaram em diversas punições, incluindo condenações judiciais, exonerações da corporação e penas cumpridas em regimes aberto e semiaberto.
O promotor de Justiça Militar Marcel Delbianco Sestaro explica que "seja colocando a mão na frente, virando de costas de forma intencional, o que o Ministério Público do estado de São Paulo passou a entender é que isso é uma conduta criminosa". Segundo as acusações, muitos dos policiais envolvidos não realizavam ações legítimas de policiamento, mas sim práticas classificadas como humilhantes e sádicas.
Caso emblemático: policial usa estilingue contra civis
Um dos episódios mais chocantes documentados pela investigação ocorreu em outubro de 2022, na Zona Norte da capital paulista. Imagens analisadas mostram o terceiro-sargento Bruno Gonzaga Alves utilizando um estilingue carregado com bolas de gude para atirar contra pedestres e motociclistas durante uma ronda de patrulhamento. O policial foi condenado a quatro anos de prisão em regime semiaberto e posteriormente exonerado da corporação.
Embriaguez em serviço e acidente de viatura
Outro caso grave analisado pela reportagem aconteceu em maio de 2023, na cidade de Guarulhos, na Grande São Paulo. Três policiais militares foram condenados após passarem horas em uma adega durante seu expediente de trabalho. De acordo com a apuração da Corregedoria, os agentes consumiram bebida alcoólica antes de retornar ao patrulhamento, o que culminou em um acidente com a viatura que capotou. Um laudo médico confirmou que os policiais estavam alcoolizados no momento do ocorrido.
Durante o julgamento, o magistrado responsável destacou que os policiais haviam descumprido sua principal missão institucional: proteger a comunidade. As condenações foram mantidas apesar das tentativas de defesa.
Violência arbitrária durante abordagens policiais
A investigação também identificou múltiplos episódios de violência arbitrária durante abordagens policiais. Em um caso ocorrido em março de 2023, na Zona Sul de São Paulo, policiais foram condenados por agredirem um entregador de motocicleta e a passageira que o acompanhava. As cenas de violência foram registradas tanto pelas câmeras corporais quanto por equipamentos de segurança instalados na região.
No julgamento deste caso específico, o advogado de defesa argumentou que "Não estamos falando de santo aqui, excelência. Ali é um local que tem baile funk, que é um local que tem uma vasta ficha de ocorrências de roubo". No entanto, a argumentação não convenceu a Justiça, que condenou os soldados Gilberto Silva e Breno Nascimento a mais de dois anos de prisão.
Morte durante abordagem e obstrução de provas
Outro processo analisado pela reportagem envolve a morte de Jonathan Azevedo, de 31 anos, ocorrida em abril de 2024, na Zona Leste da capital paulista. Imagens registradas mostram o soldado Jessé Rodrigues Júnior aplicando uma coronhada e pisando no pescoço da vítima. Durante 13 minutos críticos, as câmeras corporais foram intencionalmente obstruídas pelos policiais militares envolvidos.
Quando os dispositivos voltaram a registrar as imagens, Jonathan já estava desacordado. Embora o laudo pericial tenha apontado overdose como causa oficial da morte, a Justiça Militar condenou os policiais a pouco mais de um ano de prisão em regime aberto pelos crimes de violência arbitrária e fraude processual, especialmente devido à obstrução das câmeras durante parte significativa da ocorrência.
A mãe de Jonathan expressou sua dor e indignação: "Meu filho não era traficante, meu filho não era ladrão. Ele era apenas um dependente químico. Eu me sinto injustiçada. Eu me sinto desprotegida".
Importância do modo recall e mudanças recentes
A Corregedoria da Polícia Militar conseguiu identificar os crimes cometidos por esses policiais principalmente porque as câmeras utilizadas na época possuíam o modo recall, que permite gravação contínua e ininterrupta. No entanto, desde o ano passado, a Secretaria de Segurança Pública passou a utilizar novos dispositivos que não contam com essa funcionalidade.
O promotor de Justiça Militar reconhece que "Com as câmeras atuais não se pode negar que fica mais difícil" identificar e comprovar condutas inadequadas, o que levanta preocupações sobre a transparência e accountability das ações policiais no futuro.
A investigação completa revela um padrão preocupante de condutas criminosas dentro da corporação policial militar paulista, com graves violações aos direitos dos cidadãos e tentativas sistemáticas de ocultação de provas através da manipulação das câmeras corporais.



