Vídeos viralizam e expõem riscos em financiamentos de carros usados
Vídeos viralizam e expõem riscos em financiamento de carros

Vídeos viralizam e expõem riscos em financiamentos de carros usados

Uma série de vídeos que viralizaram nas redes sociais mostra um roteiro recorrente: vendedores de carros usados riscam papéis com caneta enquanto negociam financiamentos com clientes. Do outro lado da mesa, consumidores ouvem valores de entrada, prestações e prazos, com ajustes sendo feitos até o fechamento do negócio com um aperto de mãos.

Nos comentários dessas publicações, internautas questionam as quantias pagas pelos consumidores, que frequentemente ultrapassam o valor do próprio veículo. "O carro ele paga os R$ 50 mil, mas esqueceu de avisar que os R$ 35 mil financiados viram mais de R$ 70 mil", diz um comentário. "Cai quem quer, mas em nenhum momento ele fala que vai ficar 60 vezes de R$ 1.200, o que dá R$ 72 mil", comenta outro.

Formato dos vídeos chama atenção de especialistas

Embora não necessariamente envolvam irregularidades, o formato desses vídeos preocupa especialistas em direito do consumidor. Eles alertam que esse tipo de negociação pode dificultar a compreensão dos clientes sobre o custo total do financiamento, criando situações onde informações essenciais ficam obscuras.

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Jefferson Leão, advogado da Poliszezuk Advogados, explica que o consumidor tem direito à informação adequada e clara sobre todos os elementos relevantes da contratação, especialmente preço, encargos, juros, custo efetivo total e consequências econômicas do negócio.

O que diz a legislação brasileira

Segundo Leão, omitir informações durante a negociação verbal e apresentá-las apenas no contrato, de forma a confundir o consumidor, é uma prática vedada pela lei. Todos os custos e informações precisam estar claros tanto na conversa quanto na documentação.

"Quando o vendedor destaca apenas as parcelas mensais ou vantagens aparentes, sem explicar o custo total do financiamento, há risco de violação do dever de transparência", explica o advogado.

Joana D'Arc Pereira, assessora técnica do Procon-SP, complementa que o vendedor também tem a obrigação de fornecer todas as informações sobre o veículo que está sendo vendido. "Caso o vendedor omita informações sobre o estado do veículo, as formas de pagamento, não cumpra o que foi ofertado ou descumpra os termos de garantia, isso fere as regras de proteção ao consumidor".

Custo Efetivo Total: o valor real do financiamento

Um conceito fundamental que todo consumidor deve conhecer é o Custo Efetivo Total (CET), que representa o valor real de um financiamento. Ele inclui:

  • Taxa efetiva mensal de juros
  • Taxa dos juros por atrasos
  • Total de encargos previstos para o atraso no pagamento
  • Montante das prestações

Wanessa Guimarães, planejadora financeira CFP pela Planejar, alerta que uma diferença de apenas 0,6 ponto percentual na taxa de juros mensal pode representar mais de R$ 7,6 mil de impacto no bolso do consumidor. "Por isso, a pergunta certa ao banco não é 'qual é a taxa?', mas sim 'qual é o CET?'", aconselha.

Direitos do consumidor em caso de problemas

Arystóbulo Freitas, sócio da Arystóbulo Freitas Advogados, explica que o consumidor pode entrar na Justiça para pedir a redução dos juros, dos encargos ou de qualquer acréscimo do contrato. Também é possível solicitar a ampliação do prazo de pagamento previsto no contrato original.

"Em casos de abuso na venda do veículo — inclusive quando o financiamento apresenta valores diferentes dos acordados —, o consumidor pode pedir a revisão do contrato para adequá-lo à proposta apresentada pelo vendedor", diz Freitas.

O advogado alerta que o comprador deve guardar toda e qualquer anotação feita pelo vendedor durante a negociação — inclusive solicitando que o profissional entregue essas anotações. A rescisão do contrato, com a restituição integral dos valores pagos, e a possibilidade de indenização por perdas e danos também podem ser reivindicadas, a depender do caso.

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Recomendações financeiras para quem vai financiar

Os especialistas consultados alertam para os cuidados necessários para evitar financiamentos que possam comprometer o orçamento familiar. Segundo Guimarães, a regra tradicional do mercado financeiro é comprometer, no máximo, 30% da renda líquida mensal com todas as dívidas.

"Para o financiamento do carro, isoladamente, o recomendável é não ultrapassar 15% da renda, já que o veículo traz custos adicionais inevitáveis, como seguro, IPVA, manutenção e combustível, que juntos podem representar outros 10% a 15% da renda", explica.

A planejadora também alerta que, embora uma entrada maior reduza o valor financiado e possa diminuir o total de juros pagos, gastar todas as economias ainda representa um risco. "Quem zera o colchão financeiro para dar uma entrada grande fica vulnerável. Qualquer imprevisto pode levar ao atraso das parcelas, gerando multa, juros de mora e até nome negativado".

Versão do vendedor que aparece nos vídeos

O g1 entrou em contato com Daniel Ribeiro, vendedor que aparece com clientes nos vídeos que viralizaram. O empresário tem uma loja em Curitiba e costuma produzir vídeos para as redes sociais.

Questionado se informa o custo efetivo total (CET) aos compradores, Ribeiro afirma que seus clientes recebem o documento do banco. "Eu não vendo dinheiro, eu vendo o carro. O banco imprime a CET, que lá tem todos os encargos", diz.

O vendedor destaca ainda que o contrato é enviado junto ao carnê, de forma que os clientes podem "esmiuçar toda e qualquer dúvida" no documento. "Eu também costumo deixar claro qual é a taxa de juros que meu cliente está pagando, qual é a quantidade de vezes, e eu faço sempre a conta do valor final em todas as minhas negociações", acrescenta.

Questionado sobre as informações do CET não aparecerem nos vídeos, Ribeiro afirma que cada negociação é única. "Eu vendo uma média de 150 carros no mês. Tem cliente que tem essa dor, que quer saber esse questionamento; tem cliente que só quer saber se foi aprovado o financiamento".

Checklist para quem vai comprar carro usado

Além do valor pago no veículo, o consumidor também deve ter atenção a diversos outros fatores na hora de comprar um carro seminovo. Veja orientações essenciais:

  1. Solicite o laudo cautelar para verificar a origem do veículo
  2. Avalie o estado dos pneus e do interior do carro
  3. Confira a originalidade dos componentes
  4. Veja o funcionamento do ar-condicionado e vidros elétricos
  5. Faça um teste de condução sempre que possível
  6. Peça o histórico de revisões e manutenções
  7. Verifique a bateria e questione se for nova
  8. Observe a carroceria em busca de ferrugem ou repintura
  9. Avalie a pintura à luz do dia para identificar diferenças
  10. Cheque os itens obrigatórios como estepe e macaco
  11. Inspecione os cintos de segurança
  12. Leve a um mecânico de confiança antes de fechar negócio
  13. Atenção à garantia legal de três meses
  14. Confira o óleo do motor
  15. Verifique borrachas de portas e vedações

Especialistas reforçam que a transparência nas negociações é fundamental para proteger os direitos do consumidor e evitar problemas futuros com financiamentos de veículos.