O psicólogo Pedro Oliveira desenvolve o projeto Teatro Terapêutico na Penitenciária III de Hortolândia (SP) e na Fundação Casa, utilizando o psicodrama como ferramenta de intervenção psicológica. O ambiente carcerário, descrito como majoritariamente cinza, com grades, aço e paredes descascadas, é transformado pela arte. Um dos internos relata que, apesar da rotina monótona, o grupo proporciona imprevistos que alimentam a esperança.
Diálogo entre arte e psicologia
Criado em 2023, o Teatro Terapêutico surgiu quando Pedro concluía sua pós-graduação como psicodramatista. Inicialmente, houve desconfiança por parte dos agentes penitenciários, que não compreendiam a proposta. O objetivo é conduzir um grupo psicoterapêutico baseado no psicodrama, definido como uma encruzilhada entre teatro e psicologia. Segundo Pedro, o método parte do princípio de que a pessoa adoece em relação e é curada em relação, promovendo desenvolvimento por meio de relações saudáveis, criatividade e espontaneidade.
Para quebrar a resistência inicial, o psicólogo introduziu poesia e rap antes da improvisação cênica. Ele prioriza a criação de vínculos fortes com o grupo, permitindo que os próprios participantes direcionem o processo terapêutico. As turmas têm de 20 a 25 vagas, com encontros semanais ao longo de quatro a cinco meses. A partir do quinto encontro, o grupo passa a propor os temas, como sonhos ou visitas, que são dramatizados.
Desafios e reflexões
Pedro destaca que, na renovação dos grupos, alguns participantes permanecem como "ego auxiliar" para engajar novos membros. Um dos principais desafios é a dificuldade de homens em interpretar papéis femininos, algo que ele atribui a raízes históricas e políticas, como machismo e misoginia. Questionado se o teatro no cárcere seria "enxugar gelo", o psicólogo defende uma psicologia crítica que vai além de aliviar o sofrimento, buscando produzir consciência sobre as escolhas que levaram ao contexto prisional. Ele aponta que a falta de acesso a saúde, educação e cultura de qualidade é uma estrutura que limita as possibilidades além do crime.
Máscaras como 'experiência de liberdade'
As máscaras são instrumentos importantes nas sessões. Pedro as utiliza como recurso para alcançar lugares que uma dramatização sem máscara não alcançaria. O rosto é o principal local de identidade; ao colocar uma máscara, o indivíduo se sente visto de outra forma, produzindo uma experiência de liberdade no corpo e na pessoa. As máscaras variam de peças lisas a obras encomendadas a um artista plástico. As reações incluem medo e curiosidade, mas Pedro ressalta que, em um ambiente cinza, as máscaras representam uma porta para o mundo e uma forma de expressão artística.
Educação e arte como caminhos para a liberdade
Com a experiência acumulada, Pedro criou a Onírico Produtora em 2025, focada em projetos para jovens de escolas públicas e da Fundação Casa. Um dos projetos é a Escola do Hip Hop, apoiada pelo Fundo de Incentivo Cultural de Campinas, que coloca o jovem no centro do diálogo com a escola, usando hip-hop para criar vínculos e construir conhecimento. Outro projeto é o Escrevivências Libertárias, financiado pelo Plano Nacional Aldir Blanc, uma oficina que combina a "escrevivência" de Conceição Evaristo com a educação popular de Paulo Freire, incentivando adolescentes a escrever poesias sobre si e o mundo.
Para Pedro, educação, cultura e arte são caminhos para a liberdade, não necessariamente física, mas a liberdade de ter consciência do próprio processo. Ele afirma que levar esses projetos a públicos historicamente marginalizados é sua luta e missão.
Do hip-hop ao grafite
A educadora Thata Oliveiros, que trabalha na área social há 15 anos, vê nos elementos do hip-hop uma ferramenta de diálogo e debate político com os jovens. A Escola do Hip Hop busca fazer com que os jovens vivenciem as quatro linguagens do movimento (rap, DJ, grafite e break), compartilhando habilidades. Ela destaca que o grafite gera encantamento por ser uma arte de rua, feita em locais de grande circulação. Thata defende que arte e cultura deveriam ser política pública, e que a Onírico dá aos jovens a possibilidade de terem sonhos possíveis, resgatando a identidade de meninos pretos, periféricos e indígenas.
'Levar uma esperança e outra realidade'
O fotógrafo Joey Daminelli, social media da Onírico, acompanhou uma sessão do Teatro Terapêutico na penitenciária e se surpreendeu com a receptividade dos participantes. Na Fundação Casa, ele notou um clima de escola, com adolescentes curiosos. Joey lembra de um jovem de 17 anos que não era alfabetizado e, com o tempo, passou a escrever textos inteiros. Para ele, o trabalho é fundamental para levar esperança e outro ponto de vista. "O que para outro jovem é normal, como andar de skate ou fazer grafite, para esse moleque pode ser a salvação dele", conclui.
Novo mundo
O diretor da unidade socioeducativa, Ciro Arlei Francisco, observa que os jovens demonstram carência devido à vulnerabilidade social e à alta evasão escolar. A arte e a cultura apresentam a eles um outro mundo, antes desconhecido. A educadora Paola Montenegro conta que, inicialmente, há distanciamento, mas a barreira se rompe com o tempo. Ela se surpreendeu com o envolvimento dos jovens com a escrita. "A gente estimula que eles levem esses poemas adiante, não só aqui dentro, mas para a vida. É o começo de liberdade pelas palavras", diz.



