A Armadilha da Substituição: Como a IA Está Transformando a Advocacia e Criando Ciclos Viciosos
Armadilha da Substituição: IA Transforma Advocacia com Riscos

A Armadilha da Substituição: Como a IA Está Transformando a Advocacia e Criando Ciclos Viciosos

O cenário jurídico global está passando por uma transformação profunda e acelerada impulsionada pela Inteligência Artificial. Mais de um bilhão de pessoas se tornaram usuárias de IA nos últimos três anos, segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, e esse movimento já atinge diretamente a estrutura tradicional da advocacia.

Decisões Operacionais Concretas: Do Corte de Vagas à Reestruturação

Em dezembro de 2024, um dos maiores escritórios de advocacia do mundo cortou cerca de 50 posições em Londres, representando aproximadamente 10% do seu back-office, com justificativa explícita no aumento do uso de inteligência artificial. Semanas depois, o relatório Citi/Hildebrandt, referência no setor, projetou que 63% dos grandes escritórios esperam mudanças estruturais em seus modelos de leverage até 2035.

Bruce MacEwen, um dos consultores mais respeitados do mercado jurídico, declarou que não consegue ver o modelo de hora faturável sobrevivendo à chegada da IA generativa. Estas não são meras previsões, mas decisões operacionais concretas que estão redefinindo os parâmetros da profissão.

Da Pirâmide ao Cilindro: A Reconfiguração da Estrutura Jurídica

O mundo jurídico, especialmente em grandes firmas, opera como uma máquina de engrenagens específicas. A base larga da pirâmide tradicional – composta por profissionais juniores que realizam tarefas repetitivas e volumosas – está sendo reconfigurada pela capacidade da IA de executar essas mesmas funções em minutos.

O relatório Citi/Hildebrandt descreve a aceleração de um movimento "da pirâmide para o cilindro", com base mais enxuta e maior dependência de profissionais seniores. As firmas podem continuar crescendo o total de associados, mas planejam crescer menos nos primeiros anos, criando uma escada profissional com degraus iniciais faltantes.

A Crise da Formação Profissional

A consequência mais preocupante não está nos gráficos de headcount, mas na formação profissional. Se dezenas de milhares de horas de trabalho junior desaparecem, onde acontece o aprendizado que transformava um recém-formado em um conselheiro estratégico capaz de atuar sob pressão real?

A própria executiva do Citi citada na reportagem descreve isso como a grande questão: como crescer pessoas para virarem conselheiros estratégicos quando o treino de base é nocauteado pela automação. Esta não é uma preocupação abstrata, mas uma questão estrutural que afeta a qualidade futura da advocacia.

O Ciclo Vicioso da Dependência Tecnológica

Imagine um ciclo vicioso simples:

  1. Quanto maior a participação da IA na produção de trabalho jurídico, menos oportunidades reais de treinamento humano existem
  2. Com menos treino, cai a produtividade humana independente
  3. Com produtividade humana menor, cai a demanda por humanos para tarefas que antes eram a escola prática
  4. Isso incentiva ainda mais a adoção de IA para preencher o buraco

O ciclo se reforça sozinho: mais IA reduz treino; menos treino aumenta dependência; mais dependência aumenta espaço para IA. Em profissões de alta responsabilidade, a perda de competência se traduz em erros em escala inédita.

Erros em Escala e a Fragilização da Confiança

O banco de dados de Damien Charlotin documenta a progressão de casos envolvendo alucinações de IA em arquivamentos judiciais: de um punhado em 2023 para mais de 300 instâncias identificadas. O ponto central não é moralista, mas institucional: não se trata mais de lapsos individuais, e sim de uma falha profissional sistemática em escala inédita.

Este é o tipo de consequência que destrói confiança – o combustível invisível do Direito. Existe ainda uma segunda armadilha econômica: verificação custa. Se a IA acelera a produção, mas a checagem precisa ser quase total, você pode estar trocando horas de produção por horas de verificação, sem ganhar eficiência líquida.

Impacto Social e Econômico Ampliado

A popularização da IA dá a não-advogados a sensação de que podem resolver sozinhos questões complexas. O relatório da Task Force on Artificial Intelligence da New York State Bar Association trata explicitamente do risco de receber informação enganosa com aparência confiante, além da dificuldade de um leigo perceber vieses, casos falsos e outras alucinações.

A maioria das partes em casos civis nos tribunais estaduais americanos não tem advogado. A tentação de substituir orientação por um chatbot é real – e a consequência pode ser piorar a qualidade do acesso à justiça, não melhorar, se as pessoas forem empurradas para decisões ruins com confiança falsa.

Instabilidade Institucional e Cadeias Causais

Quando você junta todas essas peças, a instabilidade institucional fica clara e, principalmente, causal. A dinâmica pode ser resumida assim:

  • Quando a IA entra para cortar tempo, ela mexe no preço
  • Quando mexe no preço, mexe no modelo de receita
  • Quando mexe no modelo de receita, mexe na estrutura de contratação
  • Quando mexe na contratação, mexe no treinamento
  • Quando mexe no treinamento, mexe na qualidade futura
  • Quando mexe na qualidade futura, mexe na confiança
  • Quando mexe na confiança, mexe no próprio papel institucional do Direito na economia

Este encadeamento é tão forte que não depende de opinião – ele depende de incentivos. O Direito não é apenas uma profissão; ele é infraestrutura social que reduz incerteza, organiza promessas, define riscos e viabiliza crédito.

Escolhas Institucionais Determinantes

Até aqui, parece um quadro inevitavelmente pessimista. Mas ele não é. Ele é condicional. A IA pode ajudar ou piorar a vida – depende de como indivíduos e instituições adotam. O cenário virtuoso e o cenário vicioso não são destinos, mas possibilidades.

A mesma IA que pode reduzir desigualdade de acesso pode aumentar desigualdade de renda. A mesma automação que pode libertar o advogado de tarefas mecânicas pode destruir a escada que formava advogados competentes. A mesma velocidade que pode tornar o Direito mais barato pode torná-lo mais frágil se a confiança for corroída por erros em escala.

O desfecho, portanto, não é "aceitar ou rejeitar IA". É escolher o tipo de profissão e o tipo de sociedade que se constrói com ela. As escolhas institucionais dos próximos anos determinarão se a inteligência artificial será uma ferramenta de aprimoramento ou uma força de desestabilização no sistema jurídico.