Brasil atinge número recorde de desaparecimentos em 2025 com mais de 84 mil casos
As buscas pelos irmãos Ágatha Isabelly, de 6 anos, e Allan Michael, de 4 anos, continuam intensas no povoado São Sebastião dos Pretos, zona rural de Bacabal, no Maranhão. As crianças desapareceram no dia 4 de janeiro, e as operações de localização já entraram na quarta semana, mobilizando a comunidade local e contando com o apoio do Alerta Amber, protocolo acionado em situações consideradas de alto risco.
Este caso emblemático reflete uma triste realidade nacional: o Brasil registrou mais de 84 mil pessoas desaparecidas em 2025, segundo dados enviados pelos estados e pelo Distrito Federal ao Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). Este número representa o maior volume desde o início do levantamento, em 2015, superando inclusive os índices registrados antes da pandemia de Covid-19.
Análise detalhada dos dados nacionais
Os dados consideram casos de desaparecimento em todas as faixas etárias e fazem parte do painel oficial de Pessoas Desaparecidas e Localizadas, alimentado pelas secretarias estaduais de segurança pública e pelo Distrito Federal. A taxa nacional de pessoas desaparecidas em 2025, independentemente da idade, foi de 39 casos a cada 100 mil habitantes, considerando os registros consolidados ao longo do ano inteiro.
Iara Buoro Sennes, coordenadora de Políticas sobre Pessoas Desaparecidas, destaca a importância de analisar esses indicadores com cautela, levando em conta as particularidades do fenômeno. "É comum que familiares registrem o desaparecimento, mas deixem de comunicar a localização posterior do indivíduo, o que acaba inflando os números de casos", explica ela, apontando para uma possível subnotificação nos dados de pessoas encontradas.
Concentração geográfica e políticas públicas
O estado de São Paulo concentra 1 em cada 4 registros de desaparecimento no país, com 20.564 casos no ano passado, o que representa 24% do total nacional. No entanto, quando se considera o tamanho da população, o estado com maior taxa de desaparecimentos é Roraima, com aproximadamente 80 desaparecimentos por 100 mil habitantes.
Para Iara Sennes, acessar as diferenças entre estados e regiões continua sendo um desafio significativo para a política pública. Ela ressalta que a Lei 13.812/2019, que institui a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, é uma iniciativa relativamente recente. "Ainda é necessário mais aproximação com os estados para se ter uma clareza estatística sobre as causas de desaparecimento", afirma a coordenadora.
Ranking de desaparecidos por estado em 2025
Veja a lista completa dos estados brasileiros com seus respectivos números de desaparecimentos e taxas por 100 mil habitantes:
- São Paulo: 20.546 casos (taxa: 44,59)
- Minas Gerais: 9.139 casos (taxa: 42,72)
- Rio Grande do Sul: 7.611 casos (taxa: 67,75)
- Paraná: 6.455 casos (taxa: 54,29)
- Rio de Janeiro: 6.331 casos (taxa: 36,76)
- Santa Catarina: 4.317 casos (taxa: 52,73)
- Bahia: 3.929 casos (taxa: 26,42)
- Goiás: 3.631 casos (taxa: 48,91)
- Pernambuco: 2.745 casos (taxa: 28,71)
- Ceará: 2.578 casos (taxa: 27,81)
Os demais estados completam a lista com números que variam conforme suas populações e contextos regionais específicos.
Crianças e adolescentes desaparecidos
Quando se consideram especificamente os casos envolvendo menores de 18 anos, o Brasil registrou 23.919 desaparecimentos de crianças e adolescentes em 2025, segundo os dados do Sinesp. Este total representa uma média de 66 desaparecimentos nessa faixa etária por dia, configurando um aumento de 8% em relação a 2024, quando foram notificados uma média de 60 desaparecimentos diários.
Entre as unidades da federação, as maiores taxas de crianças e adolescentes desaparecidos por 100 mil habitantes foram registradas em Roraima (40 desaparecidos por 100 mil habitantes), seguido por Rio Grande do Sul (28) e Amapá (24).
Estratégias de busca e conscientização
A coordenadora Iara Sennes destaca que outra explicação para a elevação na quantidade de casos registrados é o incentivo aos registros imediatos de desaparecimento. "Temos uma oscilação nesses números, que é entendida também em termos do aumento da visibilidade e conscientização em relação à formalização desses casos", explica ela.
"A gente tem se esforçado nesses últimos anos de fazer, por exemplo, campanhas que incentivam o registro imediato das ocorrências, indo contra, por exemplo, àquele limite de que tem que esperar 24 horas para fazer uma comunicação formal de um desaparecimento", complementa a especialista, destacando a importância de ações que buscam romper com mitos e barreiras culturais que dificultam a notificação rápida.
Enquanto as estatísticas nacionais revelam números preocupantes, casos como o dos irmãos desaparecidos em Bacabal continuam a mobilizar comunidades e autoridades, lembrando que por trás de cada número há histórias humanas que demandam atenção urgente e políticas públicas eficazes.