Criminosos transformam furtos de celulares em espetáculo nas redes sociais de São Paulo
Um fenômeno preocupante tem ganhado força na capital paulista: ladrões estão gravando seus próprios furtos de celulares em diversos pontos da cidade e compartilhando as imagens orgulhosamente em dezenas de perfis nas redes sociais. Essa exposição criminosa, que já soma milhares de visualizações, representa uma espécie de exaltação ao crime, onde os bandidos buscam reputação e legitimidade perante outros criminosos.
Vídeos mostram variedade de técnicas criminosas
Nas gravações encontradas pelo g1, aparecem diferentes modalidades de ação: furtos cometidos a partir de bicicletas, ataques em que os ladrões quebram vidros de carros para roubar vítimas e abordagens dentro de estações e vagões de metrô. Em muitos casos, um comparsa acompanha a ação apenas para filmar, seja na rua ou no transporte público, registrando toda a abordagem desde o momento da investida até a fuga, frequentemente com comemorações após o crime.
Os criminosos não se limitam aos vídeos. Eles também exibem fotos de celulares roubados, muitas vezes ainda com imagens pessoais das vítimas na tela, e imagens de dinheiro, numa espécie de vitrine do que foi levado. Curiosamente, nas postagens, os responsáveis pelas publicações citam sempre o artigo 155 do Código Penal, que trata especificamente do crime de furto.
Estatísticas preocupantes apesar de redução
Apesar de dados do governo paulista mostrarem uma redução de 20% nos casos de roubos de celular no primeiro bimestre deste ano, na comparação com o mesmo período do ano anterior, a realidade na capital continua alarmante. A média é de um roubo de celular a cada 10 minutos, indicando que o problema permanece crítico.
O levantamento da TV Globo com dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP) revela que Pinheiros segue sendo o bairro que registrou o maior número de roubos e furtos de celulares na capital no primeiro bimestre. Entre janeiro e fevereiro, ao menos 2.303 aparelhos foram roubados ou furtados na região — o equivalente a 39 casos por dia. Comparado ao mesmo período do ano passado, quando foram registradas 1.562 ocorrências, houve um aumento de mais de 47%.
Ranking dos bairros mais afetados
Além de Pinheiros, outros bairros têm sofrido intensamente com a ação dos criminosos. Confira os cinco bairros da capital com maior número de roubos e furtos de celulares:
- Pinheiros: 2.303 casos
- Perdizes: 1.880 casos
- Sé: 1.846 casos
- Consolação: 1.781 casos
- Campos Elíseos: 1.656 casos
Respostas das autoridades e plataformas
Em nota, a Meta, dona do Instagram e do Facebook, afirmou que não permite conteúdos que promovam ou glorifiquem crimes, que remove publicações desse tipo quando identificadas e que colabora com autoridades, além de incentivar denúncias de usuários. Contudo, até a noite desta segunda-feira (20), as contas localizadas pelo g1 continuavam disponíveis na plataforma.
Já a Secretaria da Segurança Pública (SSP) disse que "até o momento, não foram localizados registros de boletins de ocorrência diretamente relacionados aos perfis mencionados". A pasta orienta que eventuais crimes divulgados em redes sociais sejam formalmente comunicados às autoridades para a devida apuração, seja nas unidades policiais ou por meio da Delegacia Eletrônica.
Análise especializada sobre o fenômeno
Para o professor da FGV-SP e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Rafael Alcadipani, os vídeos fazem parte de uma subcultura criminosa em que os bandidos querem mostrar que estão cometendo os atos para construir reputação. "É uma coisa bastante delicada, na medida em que eles estão usando as plataformas para mostrar os atos criminosos que estão fazendo para ter legitimidade perante os criminosos", explica o especialista.
Conforme Alcadipani, as plataformas não podem permitir que conteúdos flagrantemente criminosos fiquem hospedados. "Acredito que independe até de ter um boletim de ocorrência. As plataformas precisam tomar ação, e a polícia precisa investigar. Não é difícil investigar esses perfis e prender os responsáveis que estão cometendo esses crimes", ressaltou o professor.
A SSP informou que, desde 2023, fez mais de 50 mil prisões em toda a capital no enfrentamento aos crimes de roubo e furto, e que a delegacia de Pinheiros registrou queda de 3,49% nos roubos no primeiro bimestre. No entanto, a exposição criminosa nas redes sociais apresenta um novo desafio para as autoridades, exigindo respostas coordenadas entre polícia, plataformas digitais e sociedade.



