Deolane Bezerra chega à Polícia Civil de SP após prisão; R$ 27 milhões bloqueados
Deolane Bezerra presa em SP; R$ 27 milhões bloqueados

A advogada e influenciadora digital Deolane Bezerra, presa nesta quinta-feira (21), teve R$ 27 milhões bloqueados por determinação da Justiça. Segundo investigação do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Civil, o montante seria proveniente de movimentações sem origem comprovada e com indícios de lavagem de dinheiro ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC).

Esquema envolve transportadora de cargas

De acordo com a investigação, o esquema envolve uma transportadora de cargas com sede em Presidente Venceslau (SP), controlada pela cúpula da facção criminosa, considerada a maior do país. A transportadora repassava recursos para outras contas, com o objetivo de dificultar o rastreamento de dinheiro. Duas dessas contas estão em nome de Deolane.

Prisão em Alphaville

A influenciadora foi presa na casa dela em Alphaville, na cidade de Barueri, na Grande São Paulo. Também havia um mandado de prisão contra Marcos Willians Herbas Camacho (Marcola), considerado o chefe do PCC, que já está preso, além de parentes dele. Outros alvos presos na Operação Vérnix são Everton de Souza (vulgo Player), indicado como operador financeiro da organização, e Paloma Sanches Herbas Camacho, sobrinha de Marcola, que está em Madri.

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Defesa se manifesta

Procurado, o advogado de Deolane, Luiz Imparato, disse que está se "inteirando dos fatos". O advogado Bruno Ferullo, que defende Marcola, também afirmou que ainda vai se inteirar do caso. A defesa dos demais não foi localizada pela reportagem.

Deolane Bezerra como recebedora de dinheiro do PCC

A investigação fez cruzamentos de provas apreendidas nos últimos anos com relatórios de movimentação em contas físicas e jurídicas em nome da influenciadora Deolane Bezerra para identificá-la como recebedora de dinheiro proveniente do PCC. Parte das movimentações ocorrem em depósitos em espécie, partindo do caixa do PCC por meio da transportadora de cargas, e ordenados pela cúpula da facção, segundo a investigação.

Entre 2018 e 2021, Deolane recebeu em sua conta física R$ 1.067.505,00 em depósitos fracionados abaixo de R$ 10 mil, técnica conhecida como smurfing. Segundo a polícia, o intermediador era Everton de Souza, que indicava a conta de Deolane para “fechamentos” mensais.

Depósitos suspeitos em empresas de Deolane

Outro fato que aparece na investigação são quase 50 depósitos feitos a duas empresas de Deolane Bezerra, no valor total de R$ 716 mil, por uma empresa que se apresenta como banco de crédito e que tem como responsável um homem morador da Bahia que recebe em torno de um salário mínimo ao mês. A análise das contas a débito, tanto de Deolane quanto da empresa dela, mostram que não foi identificado nenhum pagamento relacionado a esses créditos, o que é apontado pela investigação como um indício de ocultação e/ou dissimulação de recursos do PCC. Também não foram identificadas prestações de serviço como advogada que justificassem os valores repassados para as contas da influenciadora e de suas empresas.

Viagem à Itália e retorno ao Brasil

Deolane Bezerra passou as últimas semanas em Roma, na Itália. O nome dela chegou a ser incluído na lista da Difusão Vermelha da Interpol, mas ela retornou ao Brasil na quarta-feira (20).

Outros alvos da operação

A Operação Vérnix também teve como alvos o irmão de Marcola, Alejandro Camacho, e o sobrinho dele, Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho. No total, são seis mandados de prisão preventiva, além de ordens de busca e apreensão.

O influenciador digital Giliard Vidal dos Santos, que é considerado um filho de criação por Deolane, e um contador são alvos de busca e apreensão. Everton de Souza (vulgo Player) aparece nas mensagens interceptadas durante a investigação dando orientações sobre distribuição de dinheiro da transportadora de cargas controlada pela família de Marcola e indicando contas de destino, por isso, é indicado como operador financeiro da organização.

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Outro alvo de prisão era Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, sobrinho de Marcola e apontado como o destinatário do dinheiro lavado da família e que estaria na Bolívia. Marcola e Alejandro Camacho estão presos na Penitenciária Federal de Brasília e serão comunicados sobre a nova ordem de prisão preventiva. Também foi determinado o bloqueio de 39 veículos avaliados em mais de R$ 8 milhões e R$ 357,5 milhões em bloqueios financeiros dos investigados.

Sobre a investigação

A investigação começou em 2019 com a apreensão pela Polícia Penal de bilhetes e manuscritos com dois presos na Penitenciária II de Presidente Venceslau. O material deu origem a três inquéritos policiais sucessivos, cada um responsável por revelar uma nova camada da estrutura criminosa investigada.

O primeiro inquérito teve como foco direto os dois presos que estavam com os manuscritos. A análise do material apreendido permitiu identificar referências a ordens internas da facção, contatos com integrantes de elevada posição hierárquica e menções a ações violentas contra servidores públicos. Esses dois indiciados foram condenados e inseridos no sistema penitenciário federal.

Entre os trechos analisados, chamou atenção dos investigadores a citação a uma “mulher da transportadora”, que teria levantado endereços de agentes públicos para subsidiar ataques planejados pela organização criminosa. Essa menção deu origem ao segundo inquérito policial, que buscou identificar quem seria a mulher mencionada nos bilhetes e qual seria a relação da transportadora de cargas com o grupo criminoso.

Segundo as investigações, a mulher foi identificada como Elidiane Saldanha Lopes Lemos, então sócia da transportadora Lopes Lemos. Ela já foi condenada, mas está foragida. As diligências conduziram a uma empresa sediada em Presidente Venceslau, posteriormente reconhecida como empresa de fachada usada pelo crime organizado para lavagem de dinheiro. A investigação deu origem à Operação Lado a Lado, que em 2021 revelou movimentações financeiras incompatíveis, crescimento patrimonial sem lastro econômico suficiente e a utilização da transportadora como verdadeiro braço financeiro da facção.

Nesta operação, a apreensão do celular de Ciro Cesar Lemos - indicado como operador central - trouxe para o MP e para a Polícia Civil ainda mais informações sobre a dinâmica de lavagem de dinheiro por meio da empresa de fachada Lado a Lado Transportes (ou Lopes Lemos Transportes). Isso abriu uma nova frente de investigação, sobre suspeitas de repasses financeiros e conexões com uma influenciadora digital de grande projeção nacional.

A partir das análises, o inquérito apontou que Ciro Cesar Lemos atuava na compra de caminhões, realização de pagamentos, movimentava recursos da cúpula do PCC, executava ordens de Marcola e Alejandro e administrava patrimônio em nome deles, o que o coloca como homem de confiança da liderança da facção. As imagens dos depósitos que favoreciam contas de Deolane Bezerra Santos e Everton De Souza foram localizadas no aparelho celular apreendido na casa de Ciro César Lemos. Ele está foragido, assim como a esposa.

Segundo a investigação, os valores provenientes da empresa Lopes Lemos Transportes eram destinados a Marcola, a Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior, e a seus familiares. Para as transações, foram usadas as contas de Everton de Souza e Deolane Bezerra. A apuração ainda constatou que essa influencer possuía estreitos vínculos pessoais e de negócios com um dos gestores fantasmas da transportadora de cargas.

Foi a partir desse material que nasceu a Operação Vérnix, terceira etapa da investigação, agora voltada a esmiuçar um esquema mais amplo de lavagem de dinheiro, com ramificações empresariais, patrimoniais e financeiras. Os levantamentos apontaram a utilização de pessoas jurídicas, recebimentos de origem não esclarecida, circulação de valores milionários e aquisição ou vinculação a bens de alto padrão por parte de Deolane Bezerra. Para os investigadores, a projeção pública, a atividade empresarial formal e a movimentação patrimonial eram utilizadas como camadas de aparente legalidade para dificultar a identificação da origem ilícita dos recursos.

Risco de fuga e sofisticação de esquema

Ao decretar as prisões, a Justiça de São Paulo entendeu que provas do crime e indícios fortes de autoria contra todos os investigados, incluindo movimentações financeiras suspeitas e vínculos diretos com a organização criminosa, e que a prisão era necessária para a garantia da ordem pública porque os investigados continuavam operando esquema criminoso, inclusive de dentro da prisão, representando risco real de destruição de provas e interferência na investigação. A Justiça também entendeu que outras medidas cautelares seriam insuficientes diante da sofisticação do grupo e que havia risco de fuga e ocultação de patrimônio, agravado pelo fato de alguns investigados estarem no exterior.