Presidente do São Paulo renuncia em meio a investigação de saques milionários
O São Paulo Futebol Clube vive um momento de turbulência institucional após a renúncia de seu presidente, Júlio Casares, anunciada nesta quarta-feira (21). A decisão ocorre enquanto o dirigente enfrentava um processo de impeachment e investigações da Polícia Civil que apuram suspeitas de desvios de recursos financeiros no clube. Casares, que nega veementemente todas as acusações, optou por deixar o cargo em meio a um cenário que ele descreve como "ambiente de intensa instabilidade".
Investigação aponta saques em dinheiro vivo que totalizam R$ 11 milhões
As apurações policiais tiveram início a partir de uma denúncia anônima e resultaram na abertura de um inquérito para investigar possíveis crimes como associação criminosa, apropriação indébita e furto qualificado. Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), obtidos durante as investigações, revelam que o São Paulo realizou 35 saques em dinheiro vivo entre os anos de 2021 e 2025, somando impressionantes R$ 11 milhões.
Inicialmente, dois saques no valor total de R$ 600 mil foram efetuados por um ex-funcionário do clube. Posteriormente, as retiradas passaram a ser realizadas por meio de uma empresa especializada em transporte de valores. Segundo as informações da polícia, o dinheiro era sacado em instituições bancárias e posteriormente encaminhado à tesouraria do clube. O ano de 2024 registrou a maior movimentação, enquanto em 2025 foram contabilizados 11 saques que totalizaram R$ 5,2 milhões, além de outros cinco saques que somaram R$ 1,7 milhão.
Para os investigadores, o uso de carros-fortes dificulta significativamente o rastreamento da destinação final dos recursos. "O ponto central da investigação é entender o motivo desses saques em espécie e para quem esse dinheiro foi entregue", afirmou Tiago Correia, delegado responsável pelo caso.
Defesa do clube afirma que valores estão devidamente contabilizados
A defesa do São Paulo Futebol Clube mantém a posição de que a instituição não é alvo da investigação e que todos os valores sacados estão registrados na contabilidade oficial. Segundo os advogados, o pagamento de despesas em dinheiro vivo é uma prática comum no meio futebolístico, especialmente para questões como arbitragem e premiação por desempenho aos jogadores, conhecida como "bicho".
"Os R$ 11 milhões pertenciam ao São Paulo e foram sacados pelo próprio clube para honrar despesas. Cem por cento dos valores estão contabilizados e constam no balanço", declarou um representante jurídico da instituição.
Investigados e apurações ampliadas
O inquérito policial cita nominalmente Nelson Marques Ferreira, que atuou como diretor-adjunto do São Paulo entre 2021 e novembro de 2024. As investigações se aprofundaram após a identificação da abertura de aproximadamente 15 franquias comerciais ligadas a ele em um curto período de tempo, o que levou ao acionamento do Coaf para análise das movimentações financeiras do clube. Nelson Marques Ferreira não respondeu aos pedidos de entrevista realizados pela reportagem.
A investigação também analisou uma conta conjunta mantida por Júlio Casares e sua ex-esposa, Mara Casares. De acordo com relatórios do Coaf, foram realizados depósitos nessa conta que somam R$ 1 milhão, efetuados em dinheiro vivo entre janeiro de 2023 e maio de 2025. A polícia afirma que não encontrou vínculo direto ou indireto entre os saques feitos pelo São Paulo e os depósitos na conta do presidente. A defesa de Casares sustenta que os valores têm origem lícita, acumulados ao longo de sua carreira na iniciativa privada.
O relatório do Coaf aponta ainda que os depósitos foram realizados de forma fracionada, com operações abaixo de R$ 50 mil – limite que aciona comunicações automáticas ao órgão controlador. Em alguns dias específicos, foram registrados até 12 depósitos distintos. "O dinheiro é do Júlio para o Júlio, tem origem e lastro. Isso será demonstrado no inquérito", afirmou o advogado do presidente, acrescentando que Casares determinou apuração interna por meio do setor de compliance do clube.
Esquema de camarotes e citações a ex-diretores
Outro aspecto investigado envolve um suposto esquema de comercialização clandestina de camarotes do estádio do São Paulo durante a realização de grandes shows. Este caso específico levou ao afastamento de Mara Casares do cargo de diretora de eventos em outubro do ano passado e também contribuiu para o processo de impeachment movido contra o presidente do clube.
Um áudio atribuído ao ex-diretor Douglas Schwartzman, no qual ele menciona Mara Casares, foi incluído no conjunto de provas da apuração. As defesas de ambos os envolvidos afirmam que o material foi divulgado fora de contexto e falam em julgamento antecipado por parte da opinião pública.
Carta de renúncia detalha posicionamento de Casares
Em sua carta de renúncia, Júlio Casares descreve um ambiente marcado por "ataques reiterados, narrativas distorcidas e pressões externas que extrapolaram o debate institucional legítimo". O ex-presidente afirma que versões iniciais frágeis e boatos foram sendo "reiteradamente reproduzidos, amplificados e, gradativamente, tratados como verdade", mesmo sem a apresentação de fundamentos consistentes ou provas robustas.
Casares destaca que sua renúncia "não representa confissão, reconhecimento de culpa ou validação das acusações" que lhe foram dirigidas. Ele justifica a decisão pela necessidade de preservar sua saúde, proteger sua família de "ataques e ameaças gravíssimas" e evitar que disputas políticas continuem prejudicando o time de futebol e o ambiente esportivo do clube.
O ex-presidente encerra sua carta reafirmando seu amor pelo São Paulo Futebol Clube e destacando conquistas esportivas durante sua gestão, especialmente a Copa do Brasil de 2023, título inédito e histórico para a instituição. "Ao São Paulo Futebol Clube, amor de infância e da minha vida, jamais renunciarei. Renuncio, sim, ao ambiente de conspirações, distorções, mentiras e disputas de poder que ultrapassaram os limites democráticos", finaliza Casares.