Presidente interino do Rioprevidência integrava comitê que aprovou investimentos no Banco Master
Documentos internos do Rioprevidência revelam uma conexão direta entre o atual presidente interino da instituição e as polêmicas aplicações de recursos no Banco Master. Nicholas Cardoso, que assumiu interinamente a presidência do fundo previdenciário fluminense, integrava o setor responsável por avaliar riscos e recomendar novos investimentos quando foram realizados os aportes no conglomerado financeiro.
Investimentos continuaram após alertas do Tribunal de Contas
Os documentos mostram que as aplicações no Banco Master foram realizadas mesmo depois de o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) ter alertado formalmente o Rioprevidência sobre os riscos de alocar mais recursos na instituição financeira. Entre novembro de 2023 e julho de 2024, o fundo já havia investido R$ 970 milhões em Letras Financeiras do Banco Master.
Em 20 de março de 2025, Nicholas Cardoso foi nomeado para o Comitê de Investimentos do Rioprevidência, órgão com atribuição de analisar condições de mercado, avaliar riscos e oportunidades, e recomendar aplicações de recursos conforme diretrizes legais e estratégicas definidas pelo Conselho de Administração.
Exposição considerada excessiva pelo TCE
Em 14 de abril de 2025, o TCE-RJ ressaltou que 8% de todos os recursos do fundo estavam aplicados no Master, o que deixava o Rioprevidência "altamente exposto a todos os riscos específicos daquela instituição". O tribunal alertou explicitamente os gestores participantes das decisões de alocação, especialmente membros do Comitê de Investimentos, sobre as consequências de novas operações similares.
Segundo o TCE, mesmo após esse alerta, já com Nicholas Cardoso no Comitê de Investimentos, o Rioprevidência realizou 15 novos aportes e dois resgates em três fundos de investimentos administrados pelo conglomerado do Master entre maio e julho de 2025. Nesse período, o fundo colocou quase R$ 850 milhões nos fundos de renda fixa Arena e Revolution, e no fundo de ações Texas I.
Cronologia das decisões e intervenções
O caso evoluiu com uma série de decisões importantes:
- Em 8 de outubro de 2025, o TCE proibiu o Rioprevidência de fazer novos investimentos no conglomerado do Banco Master
- Em 18 de novembro de 2025, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial do Banco Master
- Em 10 de dezembro de 2025, o TCE recomendou ao governo do Estado o afastamento imediato do então presidente Deivis Antunes e de dois diretores
- Em 23 de janeiro de 2026, os três foram alvos de busca e apreensão em operação da Polícia Federal
- Nesta terça-feira (3 de fevereiro de 2026), o ex-presidente Deivis Antunes retornou ao Brasil e foi preso por agentes da PF e PRF
Mudanças na presidência e posição da instituição
Após a exoneração de Deivis Antunes, a presidência interina foi exercida inicialmente pelo diretor de Administração Alcione Soares Menezes Filho. Em 28 de janeiro, Nicholas Cardoso assumiu a diretoria de Administração e consequentemente a presidência interina do fundo, que é responsável pelo pagamento de benefícios a 235 mil aposentados e pensionistas do Estado do Rio.
Especialistas questionam a nomeação. "Se nós temos a possibilidade de fazer uma escolha livre e consciente de qualquer gestor - e hoje temos excelentes gestores no mercado que não passaram por nenhuma problemática como essa - a pergunta que penso como pertinente é 'por que não escolher um nome que não tivesse essa vinculação'?", afirma Davi Cavalhere, advogado especialista em Direito Previdenciário.
Defesa do Rioprevidência
Em nota oficial, o Rioprevidência apresentou sua versão dos fatos:
- Afirmou que o setor interno responsável por avaliar e analisar riscos é a Diretoria de Investimentos, e não o Comitê de Investimentos
- Disse que após a entrada de Nicholas Cardoso no comitê, em março de 2025, o investimento no Fundo Arena foi 100% resgatado, sem prejuízo aos cofres públicos
- Em janeiro de 2026, a autarquia solicitou o resgate no Fundo Revolution
- Negou que a gestão dos fundos de investimentos citados fosse feita pelo Banco Master, contrariando a auditoria do TCE
- Afirmou que não foram feitos novos aportes em Letras Financeiras do Master após a determinação do TCE
- Ressaltou que está resguardado por decisão judicial que autoriza o Estado a reter valores que seriam repassados ao Master
- Garantiu que o pagamento de aposentados e pensionistas continua sem riscos de descontinuidade
A situação coloca em evidência os mecanismos de controle e governança em fundos públicos, especialmente quando envolvem decisões de investimento de grande magnitude e potencial risco. O caso continua sob investigação da Polícia Federal e acompanhamento do Tribunal de Contas do Estado.