PF investiga diretores do Rioprevidência em operação que levou à exoneração do presidente
O presidente do Rioprevidência, Deivis Marcon Antunes, foi exonerado na tarde desta sexta-feira (23) pelo governador Cláudio Castro (PL) após se tornar alvo de mandados de busca e apreensão da Polícia Federal. A medida ocorreu no contexto da Operação Barco de Papel, um desdobramento das investigações sobre o Banco Master, que também atingiu outros diretores da autarquia previdenciária do Rio de Janeiro.
Exoneração e justificativas divergentes
Deivis Marcon Antunes afirma que solicitou sua própria exoneração através de uma carta, mas o governo estadual contradiz essa versão. A administração fluminense declarou que já investigava o presidente desde dezembro por meio da Controladoria Geral do Estado (CGE RJ). O objetivo oficial era "apurar todos os fatos relativos a investimentos feitos pela autarquia" e reforçar o compromisso com a proteção do patrimônio previdenciário.
Na carta de exoneração, Deivis mencionou que suas férias estavam programadas desde novembro e que a medida visava garantir lisura e transparência nos processos. Ele também se colocou à disposição das autoridades. Entretanto, o advogado Paulo Klein, que defende o ex-presidente, informou que ele "encontra-se oficialmente em período de férias, previamente programadas desde novembro de 2025" e atualmente está nos Estados Unidos.
Operação Barco de Papel e mandados cumpridos
Agentes da Polícia Federal cumpriram quatro mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro, expedidos pela 6ª Vara Federal Criminal. Um dos endereços visitados foi a residência de Deivis Marcon Antunes em Botafogo, onde os policiais precisaram pular o portão para entrar, já que o presidente não estava presente.
Além do presidente, também foram alvos da operação:
- Eucherio Lerner Rodrigues, ex-diretor de investimentos
- Pedro Pinheiro Guerra Leal, ex-diretor de investimentos interino
Na casa de Eucherio Rodrigues, a PF apreendeu R$ 3.760 em notas novas dentro de uma mochila. Ele explicou às autoridades que o valor seria utilizado para pagar um pedreiro por serviços em sua residência.
Investigação sobre aplicações financeiras
A Polícia Federal iniciou as investigações em novembro, focando em nove operações financeiras realizadas entre novembro de 2023 e julho de 2024. Essas transações resultaram na aplicação de aproximadamente R$ 970 milhões de recursos do Rioprevidência em Letras Financeiras emitidas por banco privado.
Segundo a PF, essas operações financeiras supostamente irregulares "expuseram o patrimônio da autarquia a risco elevado e incompatível com sua finalidade". O Rioprevidência confirmou ter feito aportes de quase R$ 1 bilhão em fundos do conglomerado de Daniel Vorcaro nos últimos anos.
Contexto do Banco Master e riscos aos recursos
O Banco Master encontra-se em liquidação extrajudicial desde novembro, após o Banco Central apontar insolvência e suspeitas de fraude. A PF investiga suspeitas de gestão fraudulenta, créditos falsos e lavagem de dinheiro envolvendo a instituição financeira.
A operação recebeu o nome Barco de Papel por uma razão específica: no contexto de investimentos, o termo representa uma metáfora para ativos financeiros com alto risco de crédito, lastro frágil ou nenhuma garantia real. A analogia funciona porque, assim como um barco de papel, esse tipo de investimento é fácil de realizar e atrativo, mas se desfaz rapidamente diante de condições adversas.
Impacto nos servidores e alertas anteriores
O fundo estadual do Rioprevidência é responsável pelo pagamento de benefícios previdenciários a 235 mil servidores do Rio de Janeiro e seus dependentes, incluindo aposentadorias e pensões. A possível má gestão dos recursos coloca em risco a segurança financeira desses trabalhadores.
O Tribunal de Contas do Rio de Janeiro (TCE-RJ) já havia emitido alertas sobre a situação. Em maio, o órgão apontou "graves irregularidades" aos gestores do fundo. Em outubro, o TCE criticou novamente os aportes e determinou uma tutela provisória com apensação sobre o Rioprevidência, impedindo novas transações com o Banco Master.
O conselheiro Jose Gomes Graciosa foi enfático: "Chega de decisões sem transparência, chega de colocar em risco a aposentadoria daqueles que colaboraram com a construção deste estado".
Detalhes das aplicações questionadas
De acordo com investigações anteriores, o Rioprevidência aplicou R$ 2,6 bilhões em fundos do grupo liderado pelo Banco Master ao longo de 2024 e 2025, aproveitando taxas consideradas mais atrativas que as oferecidas por concorrentes. Até julho, esse valor equivalia a 25% dos recursos aplicados pela autarquia.
Entre os exemplos citados pelo TCE-RJ estão:
- Aporte de mais de R$ 1 bilhão no Arena Fundo de Investimento, administrado pela Master S/A Corretora
- Aplicações de mais de R$ 300 milhões em letras financeiras sem informações disponíveis
- Investimento de R$ 100 milhões em junho que caiu para R$ 75 milhões em apenas um mês
O Tribunal destacou que a rentabilidade média de alguns fundos ficou abaixo da poupança e muito aquém do CDI, reforçando a "ausência de vantajosidade" dessas aplicações.
Posicionamento do Rioprevidência
Em nota oficial, o Rioprevidência afirmou que todos os investimentos observaram rigorosamente a legislação vigente e as normas dos órgãos de controle. A autarquia destacou que está resguardada por decisão judicial de dezembro de 2025, que determinou a retenção de cerca de R$ 970 milhões acrescidos de juros e correção monetária.
Segundo a nota, essa medida visa proteger o patrimônio previdenciário dos servidores e o investimento será liquidado em aproximadamente dois anos. A autarquia reforçou seu compromisso com a transparência, legalidade e defesa dos recursos previdenciários, garantindo que a prestação de serviços e o calendário de pagamentos permanecem sem alterações.
Com a exoneração do presidente, a presidência do Rioprevidência passa a ser exercida pelo diretor de administração e finanças, conforme previsto no Regimento Interno da autarquia, enquanto as investigações da Polícia Federal e do Tribunal de Contas seguem seu curso.