PF deflagra megaoperação contra desvio de recursos na saúde do RN; prefeito de Mossoró é alvo
PF faz megaoperação contra desvio de recursos na saúde do RN

PF deflagra megaoperação contra desvio de recursos na saúde do Rio Grande do Norte

A Polícia Federal (PF) iniciou, na manhã desta terça-feira, uma extensa operação para investigar um suposto esquema criminoso de desvio de recursos públicos e fraudes em processos de licitação na área da saúde no estado do Rio Grande do Norte. A ação, que cumpriu 35 mandados de busca e apreensão, tem como um dos principais alvos o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, do partido União.

Esquema de corrupção envolve múltiplas prefeituras

As investigações da PF se concentram em seis municípios da região Oeste potiguar: Mossoró, Serra do Mel, Tibau, Paraú, São Miguel e José da Penha. De acordo com a decisão judicial que autorizou a operação, conversas captadas por meio de interceptações telefônicas revelaram detalhes do funcionamento do esquema, apelidado pelos envolvidos de "matemática de Mossoró".

Nas transcrições, empresários descrevem como contratos públicos eram manipulados para desviar verbas. Em um exemplo citado, um contrato de R$ 400 mil teria apenas metade do valor destinado à entrega efetiva de produtos. Dos R$ 200 mil restantes, R$ 100 mil seriam pagos como propina, com R$ 60 mil direcionados ao prefeito Allyson Bezerra, o que corresponderia a 15% do total do contrato.

Estrutura hierárquica do esquema criminoso

O desembargador federal Rogério Fialho Moreira, responsável pela decisão, destacou que o prefeito de Mossoró e seu vice, Marcos Antônio Bezerra de Medeiros, estariam no topo da estrutura criminosa. "No topo, estariam os agentes políticos — Allysson Leandro Bezerra Silva e Marcos Antônio Bezerra de Medeiros — que, segundo as conversas captadas, receberiam propina em percentuais definidos sobre os contratos", afirmou o magistrado.

O vice-prefeito, que assumiu o cargo em 2025, chegou a ocupar interinamente a secretaria do Fundo Municipal de Saúde de Mossoró em dezembro de 2022, órgão considerado central no esquema. Abaixo deles, estariam três gestores administrativos, responsáveis por garantir as condições institucionais, e dois fiscais no nível operacional, encarregados de viabilizar as entregas parciais mediante atestados falsos.

Volume financeiro e conexões políticas

Dados extraídos do Tribunal de Contas do Estado do RN indicam que a Prefeitura de Mossoró pagou mais de R$ 13,5 milhões a uma das empresas investigadas entre 2021 e 2025, tornando-se a principal remetente de recursos para a empresa no estado. A decisão judicial ressaltou que o volume de recursos envolvidos, somado à proximidade política entre Allyson Bezerra e um dos sócios da empresa — evidenciada por fotos nas redes sociais — reforça as suspeitas de ilegalidade.

Além disso, diálogos captados sugerem que parte dos valores desviados poderia ser destinada ao financiamento de uma futura campanha eleitoral do vice-prefeito para a prefeitura de Mossoró.

Medidas cautelares e apreensões

A operação resultou na apreensão de dinheiro na casa de um dos sócios de uma empresa investigada, embora o valor não tenha sido divulgado. Um empresário de Serra do Mel foi conduzido em flagrante pela Polícia Civil por posse ilegal de arma de fogo. A Justiça determinou medidas cautelares contra empresários, incluindo pagamento de fiança e uso de tornozeleira eletrônica.

Posicionamento dos envolvidos

O prefeito Allyson Bezerra negou qualquer irregularidade em sua conduta. Em nota, sua defesa afirmou que a operação investiga fatos ocorridos em diferentes municípios e não se confunde com sua atuação pessoal. Ele destacou que colaborou integralmente com a diligência e que adotou medidas para aumentar a transparência na gestão de medicamentos em 2023.

Outros prefeitos investigados, como Leandro do Rêgo Lima de São Miguel e Júnior Evaristo de Paraú, também se disseram inocentes, argumentando que os contratos sob investigação foram firmados em gestões anteriores ou seguindo todos os procedimentos legais. A Prefeitura de Tibau informou que não foi alvo de busca e apreensão, reafirmando a legalidade de seus processos licitatórios.

A investigação da PF tem como base auditorias da Controladoria-Geral da União (CGU), que apontaram falhas na execução contratual, incluindo indícios de compra de materiais não entregues, fornecimento inadequado de insumos e sobrepreço de produtos. Os investigados poderão responder por crimes relacionados a desvios de recursos públicos e fraudes em contratações administrativas.