Justiça avança na investigação de rachadinha no gabinete de Davi Alcolumbre
O juiz da 4ª Vara Federal de Porto Alegre, Fábio Vitório Mattiello, determinou uma série de medidas para investigar um suposto esquema de rachadinha envolvendo o gabinete do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). A decisão judicial, assinada na última segunda-feira, 16 de março de 2026, exige que a Caixa Econômica Federal e o Senado Federal forneçam documentos e informações sobre seis ex-assessoras que afirmam ter sido contratadas como funcionárias fantasmas.
Caixa tem prazo de 15 dias para apresentar extratos bancários
Conforme o despacho do magistrado, a Caixa Econômica Federal deve apresentar, no prazo de quinze dias, os extratos bancários das seis mulheres que trabalharam no gabinete de Alcolumbre entre 2016 e 2021. Além disso, o Poder Legislativo foi ordenado a fornecer todos os logins de acesso aos sistemas do Senado utilizados pelas ex-funcionárias, controle de entrada e cópia das nomeações.
As investigações revelam que as mulheres, moradoras da periferia de Brasília, foram contratadas com salários que variavam de 4.000 a 14.000 reais mensais, mas não desempenhavam funções e recebiam apenas valores entre 800 e 1.450 reais por mês. O restante do dinheiro era devolvido, em um esquema conhecido popularmente como rachadinha.
Ex-assessoras relatam devolução de salários e medo de denunciar
Em entrevistas concedidas em outubro de 2021, as ex-funcionárias detalharam como o esquema funcionava:
- Marina Ramos Brito dos Santos afirmou que o senador Alcolumbre lhe disse: "Eu te ajudo e você me ajuda". Com salário superior a 14.000 reais, ela recebia apenas 1.350 reais mensais.
- Erica Almeida Castro relatou que seu salário era acima de 14.000 reais, mas ela ficava com apenas 900 reais, perdendo até a gratificação natalina.
- Lilian Alves Pereira Braga disse que alguém do Senado pegou seu cartão bancário e senha, sacando o dinheiro e entregando sua parte de 800 reais mensais.
- Jessyca Priscylla de Vasconcelos Pires confessou que "retirava o pagamento no banco e entregava a parte deles, para pessoas que o chefe de gabinete do senador indicava".
- Larissa Alves Pereira Braga afirmou que o combinado era não aparecer no local de trabalho, recebendo 800 reais de um salário de aproximadamente 3.000 reais.
- Adriana Souza de Almeida declarou que nunca prestou serviços, nunca viu o senador e nem sabia quanto ganhava, apenas abriu uma conta e entregou senha e cartão.
Defesa de Alcolumbre responsabiliza ex-chefe de gabinete
Nos autos do processo, a defesa do senador Davi Alcolumbre argumenta que o parlamentar não tem responsabilidade sobre as contratações, que teriam ficado a cargo do então chefe de gabinete, Paulo Augusto de Araújo Boudens. Os advogados destacam que a Procuradoria-Geral da República (PGR) excluiu Alcolumbre da investigação em 2022, não encontrando indícios de sua participação no esquema.
Paulo Boudens assumiu a responsabilidade pelos crimes ao firmar um Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) junto à PGR. O juiz Mattiello solicitou cópia desse acordo, mas a PGR informou que o documento está sob sigilo e aos cuidados do Supremo Tribunal Federal (STF). Com a negativa do Supremo sobre a tramitação do ANPP, o magistrado determinou as novas medidas investigativas.
Juiz questiona falta de demonstração de lesão ao erário
O despacho judicial também aborda os argumentos da defesa de Alcolumbre, que sustenta que a petição inicial é inepta por falta de demonstração de lesão ao erário e de dano à Administração Pública. Apesar disso, o juiz Mattiello decidiu avançar com as requisições de documentos, considerando necessário esclarecer completamente os fatos.
Procurado pela reportagem, o senador Davi Alcolumbre ainda não se manifestou sobre essa nova ação judicial. O caso continua em tramitação na Justiça Federal de Porto Alegre, com expectativa de que os documentos solicitados tragam mais luz sobre as operações financeiras envolvendo as ex-assessoras.



