Justiça afasta administradora de irmandades católicas por desvio de R$ 12 milhões
Justiça afasta administradora por desvio de R$ 12 milhões

Justiça determina afastamento de administradora de irmandades católicas por desvio milionário

A Justiça do Rio de Janeiro determinou o afastamento cautelar imediato de Brígida Rachid José Pedro da administração de quatro entidades católicas, após investigação que apontou desvio de mais de R$ 12 milhões dos cofres das instituições religiosas. A decisão foi proferida pela juíza Renata de Freitas Ongaratto, da 2ª Vara Especializada em Organização Criminosa da Comarca da Capital, que também aceitou a denúncia do Ministério Público contra a ex-administradora.

Esquema milionário descoberto pelo Ministério Público

Brígida Rachid José Pedro comandava há 15 anos quatro irmandades católicas, que são associações civis sem fins lucrativos formadas por pessoas da sociedade civil para preservar o patrimônio católico. Segundo a investigação do Ministério Público, ela colocou em prática um elaborado esquema para desviar recursos dessas entidades religiosas.

A magistrada aceitou a denúncia do MP por apropriação indébita e lavagem de dinheiro, transformando Brígida em ré no processo. A decisão judicial incluiu ainda a proibição de acesso às sedes, arquivos e contas bancárias das instituições pela acusada.

Empresa de fachada e desvios sistemáticos

O esquema descoberto pelas autoridades trabalhava com a fé para obter lucros milionários. Brígida herdou dos pais, entre 2011 e 2012, duas irmandades: a São Braz e a Boa Morte. Pouco antes de assumir as administrações, ela criou a Support Serviços Empresariais, descrita pelo Ministério Público como uma "empresa de fachada".

A empresa declarava capital social de apenas R$ 2 mil e não possuía funcionários registrados. Segundo a denúncia, Brígida contratava a própria empresa para gerir os imóveis das irmandades, cobrando valores milionários por serviços que eram simulados ou inexistentes.

Entre 2014 e 2024, a administradora teria se apropriado de mais de R$ 12,7 milhões das entidades religiosas. Enquanto seu patrimônio pessoal crescia exponencialmente - seu irmão Aloysio Rachid José Pedro estima que ela acumulou meio bilhão de reais - o patrimônio sagrado das irmandades carecia do básico.

Patrimônio histórico em estado de abandono

O contraste entre os desvios milionários e o estado das propriedades religiosas é chocante. A Igreja de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte, localizada na Rua do Rosário, no Centro do Rio, está fechada ao público e apresenta graves problemas estruturais.

O prédio histórico, construído em 1785, está com paredes sem reboco, manchas de sujeira e umidade, além de pichações. No endereço cadastrado da empresa Support, na Rua Miguel Couto, também no Centro, funciona apenas uma loja de conserto de roupas, evidenciando a natureza fictícia da empresa.

Concentração de poder e recebimento direto

A investigação apontou que Brígida geria as irmandades com grande concentração de poder, conforme depoimento de seu irmão Aloysio, que afirmou que ela administrava as entidades para "ficar rica". Além disso, a acusada recebia aluguéis diretamente em espécie na sacristia da igreja e celebrava contratos de locação em seu próprio nome sobre imóveis das irmandades.

Essas práticas foram comprovadas através de e-mails de inquilinos presentes nos autos do processo, demonstrando o modus operandi do esquema de desvios.

Risco de dilapidação irreversível

Em sua decisão, a juíza Renata de Freitas Ongaratto foi enfática ao afirmar que "a manutenção da acusada no cargo de gestão perpetuaria a dilapidação patrimonial demonstrada na tabela de desvios anuais, que não cessou nem mesmo com o início das investigações, em 2018".

A magistrada destacou ainda que "há risco iminente de dilapidação irreversível de patrimônio histórico e religioso, conforme relatos de abandono material dos templos, fechamento de igrejas centenárias e deterioração de objetos sagrados".

Intervenção para salvar patrimônio

Após a decisão judicial, a Mitra Arquidiocesana nomeou um interventor para as entidades. O frei Ramon Assis da Silva foi designado como administrador provisório com a missão de tentar salvar o que resta do patrimônio histórico e religioso das irmandades.

Vale ressaltar que, no ano passado, a igreja já havia tentado destituir Brígida através de uma ação judicial, mas não obteve sucesso na época. A atual decisão representa um marco na tentativa de recuperação dessas importantes instituições religiosas e históricas do Rio de Janeiro.