Ex-servidores do BC pagos por Vorcaro articularam reunião derradeira antes de prisão
Ex-servidores do BC articularam reunião antes de prisão de Vorcaro

Ex-servidores do BC pagos por Vorcaro articularam reunião derradeira antes de prisão

Em um desdobramento crucial do caso Banco Master, ex-servidores do Banco Central, sob suspeita de receber propina regular de Daniel Vorcaro, participaram ativamente de uma reunião por videoconferência com o então controlador da instituição financeira horas antes de sua primeira prisão. O encontro ocorreu no início da tarde de 17 de novembro de 2025, na véspera da liquidação do conglomerado financeiro, levantando fortes indícios de articulação para beneficiar o banqueiro.

Reunião às pressas sem propostas concretas

Segundo informações repassadas ao Tribunal de Contas da União (TCU), apesar de Vorcaro ter solicitado a reunião urgentemente para convencer o diretor de fiscalização Ailton de Aquino Santos sobre possíveis soluções para a "aguda crise de liquidez" do Banco Master, o banqueiro não apresentou qualquer documento contendo "propostas formais, alternativas estruturadas ou informações detalhadas acerca de eventuais soluções privadas". A linguagem técnica utilizada pelo TCU sugere que o encontro foi quase improvisado, sem substância concreta para salvar a instituição.

Parlamentares da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, que receberam todo o acervo da corte de contas sobre a megafraude financeira, interpretam essa falta de formalidade como evidência de que a videoconferência foi articulada às pressas pelos ex-servidores Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza. Ambos estavam em plena atividade no Banco Central enquanto também figuravam na folha de pagamentos paralelos do Master, configurando claro conflito de interesses.

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Servidores atuavam como "consultores" privados

Na decisão que determinou o retorno de Daniel Vorcaro à prisão preventiva em 3 de março, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou categoricamente que Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza, mesmo sendo servidores públicos do Banco Central, tornaram-se "empregados/consultores" do controlador do Master "para assuntos de interesse exclusivamente privado" do banqueiro. A relação promíscua entre reguladores e regulado atingiu níveis alarmantes.

Em uma mensagem particular a Vorcaro, Souza chegou a oferecer sugestões sobre como o banqueiro deveria se comportar durante encontros com autoridades do Banco Central, incluindo o próprio presidente da autarquia. Essa orientação estratégica de um servidor público a um banqueiro sob investigação demonstra o grau de envolvimento e comprometimento com interesses privados em detrimento do dever público.

Falta de registros formais dificulta investigação

A reunião derradeira de Vorcaro com o Banco Central no dia de sua primeira prisão foi registrada na agenda pública da autarquia, porém as regras internas da autoridade monetária não exigem o registro fonográfico ou a transcrição completa dessas audiências. "Dessa forma, não há registros documentais formais acerca do conteúdo das tratativas, além do relato das autoridades presentes", constatou a área técnica do TCU em seu relatório.

Essa lacuna documental dificulta a reconstituição precisa dos diálogos e negociações que ocorreram durante a videoconferência, limitando a capacidade das autoridades de investigação de apurar completamente as intenções e articulações dos envolvidos. A ausência de protocolos mais rigorosos de registro em reuniões sensíveis representa uma vulnerabilidade institucional significativa.

O TCU destacou em sua análise que, "a despeito das circunstâncias do Banco Master naquela data, que demonstravam patente incapacidade do conglomerado para atender a seus compromissos financeiros, o relato apresentado (por Vorcaro) na reunião se limitou a vagas referências a possíveis operações de reorganização, venda de ativos e de participações societárias". Essas referências genéricas, sem documentação de suporte, não permitiam ao Banco Central avaliar "a consistência, a viabilidade ou o grau de maturidade das iniciativas mencionadas durante o encontro".

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A articulação de última hora ocorreu quando o Banco Master já demonstrava claros sinais de colapso iminente, com fundos e títulos sem lastro prestes a ruir completamente. A tentativa de salvar o banqueiro e sua estrutura financeira insustentável através de uma reunião improvisada com autoridades reguladoras revela a extensão do esquema e o nível de influência que Vorcaro exercia sobre servidores públicos que deveriam fiscalizá-lo.