Ex-diretora de presídio detalha esquema milionário para fuga de detentos na Bahia
A ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, no extremo sul da Bahia, Joneuma Silva Neres, revelou em delação premiada detalhes alarmantes sobre um esquema criminoso que facilitou a fuga de 16 detentos em dezembro de 2024. Segundo seu depoimento ao Ministério Público da Bahia, o ex-deputado federal Uldurico Júnior (PSDB) teria sido o principal articulador do plano, negociando diretamente com chefes de facções criminosas dentro dos presídios da região.
Reuniões sigilosas e rede de envolvidos
Joneuma afirmou que Uldurico Júnior realizava reuniões "de portas fechadas" com líderes criminosos, prática que era considerada "normal" dentro do sistema prisional. A ex-diretora identificou pelo menos cinco pessoas que acompanhavam o ex-parlamentar nessas visitas, formando uma rede de envolvidos no esquema.
Entre os citados estão:
- Alberto Cley Santos Lima (PSD) - candidato a vereador em Eunápolis em 2024, teve mandado de busca cumprido
- Matheus da Paixão Brandão - ex-secretário parlamentar de Uldurico, também alvo de mandados
- Jonatas dos Santos (MDB) - vereador de Teixeira de Freitas, apenas citado
- David Loyola - secretário municipal de Teixeira de Freitas, apenas citado
- Clebson Porto - advogado, apenas citado
Negociação milionária e pagamentos incomuns
O valor total acertado para facilitar as fugas seria de R$ 2 milhões, conforme a delação. Uldurico Júnior teria recebido um adiantamento de R$ 200 mil, entregue de maneira peculiar: "em espécie, dentro de caixas de sapato", além de transferências via PIX.
Joneuma descreveu com precisão como ocorreu a entrega do dinheiro:
- Em 4 de novembro de 2024, ela recebeu o dinheiro em uma caixa de sapato em frente a uma casa com adesivo "CLEY" no muro
- No dia seguinte, entregou o valor na casa do pai de Uldurico Júnior em Teixeira de Freitas
- Presentes estavam o pai do ex-deputado, sua madrasta, uma funcionária doméstica e um assessor familiar
- O assessor conferiu o dinheiro, ficando R$ 150 mil com o pai de Uldurico
- O restante foi depositado na conta do ex-parlamentar e transferido via PIX para terceiros
Mudanças no plano e envolvimento de facções
Originalmente, o plano previa apenas a fuga de dois líderes criminosos: Ednaldo "Dada" (chefe do Primeiro Comando de Eunápolis) e "Saguin" (sub-líder). No entanto, o esquema se expandiu e resultou na fuga de 16 detentos. A data também foi antecipada após Dada receber informações sobre uma possível transferência.
A operação policial que prendeu Uldurico Júnior foi batizada de "Duas Rosas", referência à expressão usada pelos envolvidos para se referir ao pagamento: "chorar as rosas".
Menção a político de alto escalão
Um dos aspectos mais graves da delação é a menção ao ex-ministro Geddel Vieira Lima. Segundo Joneuma, Uldurico Júnior afirmava que metade do dinheiro da fuga seria destinado ao político, que na época era líder do MDB na Bahia - partido ao qual Uldurico era filiado.
O ex-ministro negou veementemente qualquer envolvimento, classificando Uldurico como "irresponsável, inconsequente e leviano" e afirmando que seu nome estava sendo usado indevidamente para dar credibilidade ao esquema.
Defesas e investigações em andamento
A defesa de Uldurico Júnior declarou que todas as acusações são falsas e têm como objetivo "livrar a delatora de sua responsabilidade". Já a Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap) informou que colabora "de forma irrestrita" com as investigações.
A Justiça já aceitou a denúncia do Ministério Público contra Uldurico Júnior e contra Dada - este último continua foragido. Os endereços de Alberto Cley e Matheus Brandão foram alvo de mandados de busca e apreensão, enquanto os demais citados aguardam desdobramentos das investigações.



