Investigações revelam que empresas concorrentes em obras milionárias de escolas do RJ compartilham funcionários e chefia
Empresas de obras em escolas do RJ compartilham funcionários, aponta investigação

Empresas concorrentes em obras milionárias de escolas estaduais do Rio de Janeiro compartilham funcionários e estrutura, revela investigação

Uma nova etapa da investigação sobre obras em escolas estaduais do Rio de Janeiro indica que empresas que disputam verbas milionárias da Secretaria Estadual de Educação (Seeduc) compartilham funcionários, chefia e até mesmo a mesma conta bancária utilizada para pagamento de salários. As revelações surgem após reportagens que mostraram o uso de um sistema descentralizado de pagamento para financiar grandes reformas na rede estadual de ensino.

Sistema descentralizado movimenta mais de R$ 1 bilhão

Nos últimos dois anos, a Seeduc repassou mais de R$ 1 bilhão para esse sistema, que apresenta menor transparência e passou a ser utilizado também para bancar obras estruturais de grande porte. Agora, a apuração revela indícios de que empresas que deveriam competir entre si podem estar atuando de forma integrada e coordenada.

Mesmos funcionários e mesma estrutura operacional

Duas construtoras contratadas para reformar escolas estaduais, a Hellon Arquitetura Ltda e Construções Progresso & Co Ltda, são alvo de ações judiciais que apontam funcionamento conjunto. Em um processo trabalhista, um pedreiro relatou à Justiça que as empresas "fazem parte do mesmo grupo, sendo que o autor trabalhava concomitantemente para as duas".

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Segundo o trabalhador, os funcionários tinham o mesmo chefe e recebiam salários a partir da mesma conta bancária. As duas empresas foram escolhidas para obras orçadas em pelo menos R$ 6,6 milhões, mas como os gastos do sistema descentralizado não aparecem de forma detalhada nos sistemas públicos, não é possível saber o valor total recebido por cada uma.

Condições precárias de trabalho

Outro trabalhador que move ação contra as duas firmas afirma que os empregados atuavam em obras em diferentes locais em condições precárias. Segundo o processo, "o autor e demais trabalhadores dormiam no chão e se utilizavam de colchão improvisado".

Imagens obtidas pela reportagem mostram operários dormindo em condições improvisadas. Em um dos vídeos, um trabalhador relata: "a gente come aqui sentado no chão. Olha como é que a gente dorme, oh".

Decisão judicial confirma atuação conjunta

O RJ2 encontrou vários processos em que Hellon e Progresso aparecem como rés. Em uma das decisões, a Justiça do Trabalho concluiu que as empresas atuavam em conjunto. Segundo a sentença, "as rés empreendiam em conjunto e se beneficiaram simultaneamente da mão de obra do obreiro".

Levantamento parlamentar revela valores astronômicos

Levantamento do gabinete do deputado estadual Flávio Serafini (PSOL) aponta que os repasses da Seeduc ao sistema descentralizado ultrapassaram R$ 1 bilhão em dois anos — R$ 630,2 milhões em 2024 e R$ 513,3 milhões em 2025. Nesta semana, o deputado protocolou novas denúncias no Ministério Público com base nas revelações da série de reportagens.

As matérias anteriores mostraram que o sistema, criado originalmente para compras emergenciais e pequenos reparos, passou a financiar grandes reformas estruturais. O RJ2 também revelou que empresas estavam registradas em endereços residenciais e mostrou a dificuldade de rastrear os valores totais pagos a cada contratada.

Mesma contadora e mesma consultoria

O elo entre as empresas não se limita aos funcionários. O RJ2 mostrou que 13 empresas que participam de aparentes disputas por obras foram abertas pela mesma contadora, Liege de Paula, que também prestou serviços para Hellon e Progresso. Ao ser procurada, a contadora desligou o telefone antes de responder às perguntas da reportagem.

As duas empresas também têm a mesma consultoria, a Bezerra Consulting, do advogado Emerson do Nascimento Bezerra. Questionada se não seria estranho que concorrentes compartilhassem consultores e contadores, a dona da Progresso, Jennifer Mendes, respondeu: "Ai eu não sei te responder. Não tenho essa informação".

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Vínculo com a cúpula da secretaria

A Bezerra Consulting pertence a Emerson Bezerra, sócio em outra empresa, a Starled Soluções Ltda, de comércio de peças eletrônicas, com capital social de R$ 500 mil. O sócio dele nesse negócio é Yurie Lopes Fonseca Ormonde, genro da secretária estadual de Educação, Roberta Barreto.

Em denúncia apresentada ao Ministério Público e ao Tribunal de Contas, Yurie é citado como ex-chefe de gabinete da secretaria e como responsável por autorizar obras, embora não tenha ocupado formalmente o cargo.

Posicionamento das partes envolvidas

A Seeduc afirmou que Yurie Lopes nunca foi nomeado na pasta e que mais de cem empresas atuaram em obras nas unidades da rede, todas com documentação regular para exercer as atividades. A secretaria também sustenta, conforme já havia informado nas reportagens anteriores, que os processos seguem a legislação e são acompanhados por órgãos de controle.

A Bezerra Consulting confirmou que presta serviços para três empresas que atuam em reformas de escolas, mas disse que atua de forma técnica e profissional e que não é responsável por atitudes ou eventuais ligações de seus clientes com terceiros. A consultoria afirmou ainda que a relação com Yurie Lopes é restrita à administração de empresas privadas, sem negócios com o setor público.

A reportagem pediu posicionamento à defesa de Yurie Lopes, mas não houve retorno. As empresas citadas também não responderam aos contatos da equipe jornalística.