Documentos revelam que Banco Master evitou reuniões e escondeu origem de carteiras de crédito do BRB
Banco Master evitou reuniões e escondeu origem de carteiras do BRB

Documentos internos expõem manobras do Banco Master em negociação com BRB

Relatórios confidenciais do Banco de Brasília (BRB), datados de 4 de abril e 19 de maio de 2025, revelam uma série de obstruções por parte do Banco Master durante tentativas de resolver pendências relacionadas a carteiras de crédito adquiridas pelo banco público. Os documentos, elaborados por um grupo de trabalho do BRB responsável por analisar operações do produto CredCesta, mostram que o Master cancelou reuniões repetidamente, deixou de responder a cobranças formais e não esclareceu questões cruciais sobre as transações.

Contexto da operação frustrada

Ao longo de 2025, o BRB tentou adquirir 58% das ações do Banco Master por R$ 2 bilhões, uma operação que foi barrada pelo Banco Central. Na mesma data em que o BC liquidou o banco, o proprietário Daniel Vorcaro foi preso. As investigações apontam que, por trás dessa tentativa de aquisição, havia graves irregularidades nas carteiras de crédito que o BRB já havia comprado do Master.

O produto CredCesta, um cartão de benefício consignado oferecido a servidores públicos, aposentados e pensionistas, onde as parcelas são descontadas diretamente da folha de pagamento, estava no centro das análises. O BRB identificou inconsistências significativas nos repasses financeiros, falhas na documentação e dificuldades técnicas para verificar a validade dos contratos.

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Sequência de adiamentos e falta de cooperação

De acordo com o primeiro relatório, concluído uma semana após o BRB informar ao mercado sua intenção de comprar o Master, o banco público começou a enviar cobranças formais após identificar divergências nos repasses. Em um caso específico, técnicos apontaram que parcelas previstas não haviam sido incluídas nos arquivos enviados pelo Master, o que gerou uma "inadimplência muito acima do esperado".

O segundo relatório detalha uma sequência exasperante de tentativas frustradas de reunião:

  • A primeira reunião foi marcada para 4 de abril, mas o Master pediu adiamento para o dia 7
  • No dia 7, a pauta foi alterada e o encontro específico sobre lastros foi remarcado para 8 de abril
  • No dia 8, a reunião ocorreu, mas serviu apenas para que o Master solicitasse novo adiamento para o dia 9
  • Em 9 de abril, pouco antes do horário, o Master pediu reagendamento para 14 de abril
  • No dia 14, o Banco Master simplesmente declinou da reunião

Durante esse período, o BRB havia solicitado quatro levantamentos considerados essenciais para análise das carteiras, mas nenhum foi apresentado. O próprio Master admitiu, por e-mail, que não conseguira concluir esses levantamentos.

Visitas técnicas revelam problemas operacionais graves

Diante da sequência de adiamentos e da falta de respostas, em 15 de abril de 2025 o grupo de trabalho do BRB registrou formalmente preocupação com o que classificou como "constantes remarcações e recusas" do Banco Master.

Na mesma data, iniciou-se a primeira visita técnica na sede do Master em São Paulo. Entre 15 e 17 de abril, os técnicos do BRB descobriram que:

  • O controle das operações era feito manualmente, através de planilhas
  • Havia limitações na capacidade de calcular valores de repasse
  • Existia demora no atendimento às demandas do BRB
  • A equipe do Master tinha pouco conhecimento sobre operações originadas por associações

Durante essa visita, foram identificados cerca de R$ 15,5 milhões em parcelas que constavam nos arquivos mas não haviam sido repassados financeiramente. O Master reconheceu aproximadamente R$ 14,5 milhões, que foram pagos durante a visita.

Descoberta chocante: origem das carteiras

Uma segunda visita técnica, realizada em 29 e 30 de abril de 2025, trouxe a revelação mais impactante. O BRB descobriu que boa parte das carteiras de crédito adquiridas do Master não tinham como fonte o banco de Daniel Vorcaro, mas sim a empresa Tirreno, fundada meses antes, em 4 de novembro de 2024.

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Quando questionada anteriormente sobre a origem das carteiras, a equipe do Master mencionava apenas uma "associação", sem identificar a instituição. A identificação formal como Tirreno só ocorreu durante a visita presencial, através do superintendente executivo de Tesouraria, Alberto Felix.

Duas semanas depois, em reunião virtual, o Master informou ao BRB que não realizava o registro dessas operações em seu balanço, o que, segundo o grupo de trabalho, dificultava drasticamente a rastreabilidade e validação dos contratos adquiridos.

Prejuízo bilionário e esquema fraudulento

As investigações subsequentes revelaram que o BRB comprou R$ 12 bilhões em carteiras de crédito consideradas "podres", que não pertenciam efetivamente ao Master e não tinham garantias financeiras adequadas.

A suspeita é que o Banco Master não possuía fundos suficientes para honrar os títulos que emitiu, com vencimento em 2025. A instituição teria então adquirido créditos - sem realizar qualquer pagamento - da Tirreno para, em seguida, revendê-los ao BRB, em um esquema que resultou em prejuízo bilionário para o banco público.

O g1 questionou o BRB sobre essas revelações, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem. Os documentos internos pintam um quadro preocupante de falta de transparência, obstrução deliberada e possíveis irregularidades financeiras em uma das maiores operações bancárias recentes no país.