O professor de jiu-jitsu Melquisedeque de Lima Galvão Ferreira, conhecido como Melqui Galvão, foi preso no dia 28 de abril em Manaus, acusado de abusos sexuais, físicos e psicológicos contra alunas. A prisão temporária foi decretada pela Justiça após investigação da Polícia Civil de São Paulo, que apura denúncias de ao menos três vítimas, incluindo uma adolescente de 17 anos.
Denúncia da atleta Brenda Larissa
A atleta Brenda Larissa Alves da Silva, de 26 anos, denunciou ter sido vítima de abusos por 14 anos, desde os 12 anos, quando entrou em um projeto esportivo em Manaus. Segundo ela, o treinador se aproveitou de sua dedicação e da vulnerabilidade familiar, oferecendo apoio financeiro e promessas de carreira, mas em troca exigia obediência e iniciou os abusos.
“Ele falou que eu podia mudar a vida da minha família, mas chegou um momento em que disse que eu teria que pagar por tudo. E eu paguei da pior forma possível”, afirmou Brenda. O professor custeava despesas como alimentação, kimono e inscrições, além de conseguir patrocínios, mas os abusos se tornaram rotineiros.
Outras vítimas e tentativa de ocultar crimes
Aos 16 anos, Brenda descobriu que outras meninas do projeto também eram vítimas. “Eu achava que só eu vivia aquilo, mas não era. Tinha outras passando pelo mesmo”, contou. Após surgirem comentários sobre os abusos, o projeto foi encerrado. Para despistar suspeitas, o treinador criou um suposto namoro entre Brenda e outro aluno, o que ela classifica como “um plano dele para que ninguém descobrisse o que estava acontecendo”.
Controle à distância e persistência
Depois, Melqui Galvão criou um novo projeto nos Estados Unidos. Brenda tentou participar, mas teve o visto negado, viajando apenas para o Mundial. Ao retornar ao Brasil, mudou-se para São Paulo e o contato diminuiu. “Ele meio que parou pela distância, não podia controlar de longe”, recordou. Na pandemia, ao voltar a Manaus, sofreu pressão psicológica para permanecer sob sua influência até a inauguração de uma academia em Jundiaí.
Brenda rompeu profissionalmente em 2023, mas o contato persistiu. “Ele continuava me mandando mensagens, fazendo propostas, tentando me convencer a voltar. Isso era uma tortura”, disse. Ela relata agressões físicas e humilhações, e afirma que a própria irmã também foi vítima de abuso sexual pelo mesmo homem.
Denúncia e pedido por justiça
A atleta registrou denúncias em Manaus e decidiu tornar o caso público para incentivar outras vítimas. “Foram 14 anos de muito medo”, disse. “Muita indignação pela minha irmã, por tudo que eu vivi também. E, ao ouvir os relatos de outras meninas, isso me deu força para falar: se elas não conseguem, eu vou conseguir”, relatou. Ela espera encorajar outras vítimas a denunciarem, mesmo anonimamente.
Quem é Melqui Galvão
Melqui Galvão é faixa preta e treinador de jiu-jitsu, pai do multicampeão Mica Galvão. Após a prisão, Mica se manifestou nas redes sociais: “É difícil encontrar palavras para um momento como esse. Meu pai foi quem me colocou no tatame pela primeira vez ainda criança. Foi ele quem me ensinou a lutar, a competir, a respeitar o adversário e a ter caráter”. Ele repudiou qualquer forma de assédio ou violência contra mulheres e crianças.
Investigação e prisão
O caso veio à tona após uma adolescente de 17 anos, ex-aluna, denunciar atos libidinosos não consentidos durante uma competição esportiva no exterior. A vítima está nos Estados Unidos e foi ouvida pelas autoridades. A prisão temporária foi decretada após denúncias reunidas pela 8ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), que apura relatos de ao menos três vítimas. Os denunciantes apresentaram uma gravação na qual o investigado admite indiretamente o ocorrido e tenta evitar o caso com promessa de compensação financeira.
Durante a apuração, outras duas possíveis vítimas foram identificadas em diferentes estados, relatando episódios semelhantes. Em um dos casos, a vítima tinha 12 anos na época dos fatos. Melqui Galvão havia viajado para o Amazonas menos de 24 horas antes da prisão. Ele se apresentou às autoridades em Manaus, onde a prisão foi cumprida. Além da prisão temporária, foram cumpridos três mandados de busca e apreensão em endereços ligados a ele em Jundiaí.
A Polícia Civil do Amazonas informou que as investigações continuam em Manaus, com depoimentos presenciais e virtuais. O suspeito está detido na Delegacia-Geral, aguardando transferência para um presídio em São Paulo. O g1 não localizou a defesa de Melqui Galvão.



