Comando Vermelho ordena extorsão de comerciantes de água mineral em Sobral (CE)
CV extorque comerciantes de água em Sobral; 10 presos

Uma operação criminosa que ameaçava comerciantes e distribuidores de água mineral em Sobral, no Ceará, foi desarticulada com a prisão de dez suspeitos entre os dias 4 e 6 de março. As investigações revelaram que as ordens para o esquema de extorsão partiram de um membro do Comando Vermelho (CV) escondido no Rio de Janeiro, conforme depoimento de um dos detidos.

Esquema de cobranças e ameaças organizado via WhatsApp

De acordo com o depoimento acessado pelas autoridades, as orientações foram compartilhadas em um grupo de WhatsApp que reúne integrantes da facção em bairros como Alto da Brasília, Paraíso das Flores e Recanto, em Sobral. A ordem para iniciar as cobranças veio de um criminoso identificado como "Wilker", conhecido por "Big Smurf", ex-liderança do CV no bairro Alto da Brasília, que atualmente se esconde no Rio de Janeiro.

Pelas diretrizes do grupo, apenas duas marcas de água mineral poderiam ser comercializadas, com uma taxa imposta sobre cada garrafão de 20 litros vendido. As demais marcas seriam proibidas nos bairros controlados, e os membros da facção ficariam encarregados de avisar os comerciantes e impedir a circulação dos caminhões das empresas não autorizadas.

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Como funcionava a extorsão

Os criminosos atuavam em duas frentes principais, conforme detalhado pelas investigações:

  • Contra as empresas fornecedoras: As distribuidoras eram obrigadas a repassar parte do valor de cada venda de garrafão para o grupo criminoso, em uma espécie de taxa compulsória.
  • Contra os comerciantes locais: Os donos de estabelecimentos eram ameaçados e coagidos a vender exclusivamente as marcas determinadas pela facção, além de terem que pagar uma quantia diária para continuar operando.

Conforme apuração da TV Verdes Mares, os criminosos exigiam R$ 1,50 por cada garrafão vendido pelas distribuidoras aos comerciantes. Em mensagens no WhatsApp, um dos suspeitos deixou claro o controle: "Caminhão de água pode parar todos. Os comerciante que vende tem que pegar as que nois determina".

Comerciantes relatam intimidações e prejuízos

Um comerciante de água mineral em Sobral, que preferiu não se identificar por questões de segurança, revelou à TV Verdes Mares que o grupo exigia um pagamento diário de R$ 1 mil para que ele pudesse trabalhar. Incapaz de arcar com o valor, o empresário decidiu fechar o negócio e se mudar para outra cidade.

"Recusei, sugeriram uma taxa de R$ 1 mil a diária para eu trabalhar. Com uma taxa muito alta, eu não consegui trabalhar. Fechei os depósitos e [fiquei] recebendo as ameaças [para] que eu saísse de casa", relatou a vítima, que ainda teve a casa arrombada e os bens roubados após deixar Sobral.

Outro comerciante afirmou que circulou em grupos de WhatsApp uma tabela com novos preços sugeridos para o garrafão, já incluindo o aumento destinado aos criminosos. O caso ganhou repercussão após um vídeo nas redes sociais em que um revendedor anunciava o fechamento do comércio devido às ameaças.

Dez suspeitos presos e investigações em andamento

A Secretaria da Segurança Pública do Ceará (SSPDS) informou que a Polícia Civil e a Polícia Militar prenderam em flagrante dez pessoas suspeitas de integrar organização criminosa. O grupo "estaria tentando intervir no comércio de água mineral" de Sobral.

As prisões ocorreram em diferentes momentos:

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  1. Na quarta-feira (4), agentes capturaram um homem que supostamente repassava ameaças aos comércios.
  2. No mesmo dia, quatro homens foram presos em flagrante enquanto descarregavam garrafões de água de um caminhão no bairro Vila União, em Sobral. O veículo foi apreendido.
  3. Ainda na quarta-feira, mais dois homens foram detidos.
  4. Até a sexta-feira (6), outras três pessoas foram presas.

Os dez detidos têm idades entre 18 e 29 anos, sendo que cinco já possuem passagem pela polícia por crimes como tráfico de drogas, violência doméstica, lesão corporal, roubo e posse irregular de arma de fogo. Pelo menos um dos presos já foi solto após audiência de custódia, com posicionamento favorável do Ministério Público do Ceará (MPCE). Todos foram autuados pelo crime de integrar organização criminosa, e o caso está sendo investigado pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) da Região Norte.

Expansão das facções criminosas no Ceará

Este não é um caso isolado. Em 2025, foram revelados diversos episódios em que facções buscaram lucrar com o comércio de itens diversos no estado. Entre as atividades ilegais estão:

  • Controle sobre a venda de água de coco na avenida Beira Mar, em Fortaleza (agosto).
  • Ameaças a vendedores ambulantes de jogos de apostas virtuais em Maracanaú (novembro).
  • Cobrança de taxa de funcionamento sobre provedores de internet em várias cidades (fevereiro).

A expansão das receitas das facções frequentemente ocorre por meio de violência contra moradores, extorsão de comerciantes e disputas territoriais, resultando em conflitos armados e famílias expulsas de suas casas. O caso de Sobral ilustra como grupos criminosos tentam diversificar suas fontes de renda além do tráfico de drogas, infiltrando-se em setores legais da economia através da intimidação e da coerção.