Tenente da Aeronáutica preso por comandar esquema de agiotagem que movimentou R$ 150 milhões no AM
Tenente da Aeronáutica preso por agiotagem que movimentou R$ 150 mi

Tenente da Aeronáutica preso por comandar esquema milionário de agiotagem no Amazonas

A Polícia Civil do Amazonas deflagrou nesta terça-feira (14) a segunda fase da Operação Tormenta, que desmantelou uma complexa rede de agiotagem que movimentou mais de R$ 150 milhões através de empréstimos clandestinos com juros abusivos, ameaças e extorsão. Entre os cinco presos está o tenente da Aeronáutica Caique Assunção dos Santos, apontado como líder de um dos grupos criminosos.

Esquema sofisticado que vitimava servidoras públicas

Segundo as investigações, o esquema operava através de múltiplos grupos interligados que atuavam de forma coordenada, criando um ciclo vicioso de dívidas e cobranças ilegais. As principais vítimas eram servidoras públicas, especialmente mulheres que trabalham em órgãos como o Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) e o Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM).

Os investigados ofereciam empréstimos com juros que podiam aumentar as dívidas em mais de 50% ao mês, um valor consideravelmente abusivo. Após a liberação do dinheiro, iniciava-se uma fase intensa de cobranças caracterizada por:

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram
  • Ameaças constantes, incluindo intimidações de morte e sequestro de familiares
  • Tomada de bens como carros, joias, eletrônicos e imóveis quando as vítimas não conseguiam pagar
  • Recolhimento de documentos pessoais e cartões bancários
  • Controle de aplicativos financeiros para retirar dinheiro diretamente das contas

Mecanismo de repasse de dívidas entre grupos criminosos

Um dos aspectos mais perversos do esquema, segundo a polícia, era o repasse sistemático de dívidas entre diferentes grupos de agiotas. Quando um núcleo encontrava dificuldade para receber os valores, a dívida era transferida para outro grupo, que intensificava as cobranças e aplicava novos juros sobre o montante já inflado.

"São diversos grupos de agiotas que, interligados entre si, realizavam cobranças de juros excessivos, extorsões e até roubos", afirmou o delegado Cícero Túlio, titular do 1º DIP. Com essa prática, as dívidas continuavam a crescer exponencialmente, mantendo as vítimas presas em um ciclo interminável de cobranças ilegais.

Violência e intimidação como ferramentas de coerção

As investigações revelaram que o grupo utilizava ameaças graves para garantir os pagamentos. Em áudios obtidos com exclusividade pela Rede Amazônica durante a primeira fase da operação, um dos suspeitos ameaçou sequestrar o filho de uma das vítimas:

"Pô, cara, tu não tem palavra mesmo não, né? Se tu não tem palavra, eu tenho. Entendeu? Vou mandar sequestrar teu filho hoje. Eu vou querer meu valor, tudinho que eu te emprestei, entendeu? Valor integral. Já esperei muito. Quando eu falo, eu cumpro as coisas que eu falo, entendeu? Diferente de você, porque você não tem palavra".

Uma das vítimas relatou ter feito um empréstimo inicial de apenas R$ 5 mil, mas viu sua dívida evoluir para valores astronômicos, resultando na perda de dois imóveis e um carro para o grupo criminoso.

Esquema persistiu mesmo após primeira fase da operação

Na primeira fase da Operação Tormenta, realizada em fevereiro, seis pessoas foram presas e foram apreendidos armas, dinheiro, documentos e cerca de 30 veículos de luxo. No entanto, segundo a polícia, o esquema continuou funcionando mesmo após essas prisões.

Integrantes que não foram presos inicialmente passaram a atuar como intermediários, mantendo as cobranças, ameaças e movimentação financeira. "Durante a primeira fase da Operação Tormenta, a gente conseguiu retirar parte dessa organização criminosa de circulação e mesmo com sete pessoas presas, eles continuaram e ainda debocharam da atuação da polícia e do Poder Judiciário", explicou o delegado Cícero Túlio.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Lavagem de dinheiro através de empresas de fachada

Para ocultar a origem ilícita dos valores, o grupo utilizava empresas de fachada. Pelo menos seis tiveram bloqueios financeiros nesta nova fase da operação. Uma delas, ligada a investigados da primeira etapa, movimentou mais de R$ 3,3 milhões, segundo dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Prisões e investigações em andamento

Além do tenente Caique Assunção dos Santos, outras quatro pessoas foram presas na segunda fase da operação:

  1. Ronan Benevides Freire Massulo
  2. Alexsandro Carneiro Capote
  3. Carlos Augusto da Silva Freitas
  4. Dionas Pereira de Souza

Com o militar, foram apreendidos arma de fogo, munições, documentos, equipamentos eletrônicos e um veículo. A Polícia Civil ainda procura seis investigados que seguem foragidos.

Os investigados podem responder por crimes como associação criminosa, agiotagem, extorsão, roubo majorado, falsidade ideológica, porte ilegal de arma de fogo e lavagem de dinheiro. O g1 tentou localizar a defesa dos suspeitos e também entrou em contato com a Força Aérea Brasileira (FAB), mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem.