Tenente-coronel preso por feminicídio afirma 'nunca fui bandido' em interrogatório
Em depoimento à Polícia Civil, o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, preso preventivamente por suspeita de matar a esposa Gisele Alves Santana com um tiro na cabeça, fez uma defesa enfática de sua honra e trajetória profissional. O crime ocorreu dentro do apartamento do casal no Brás, região central de São Paulo, em 18 de fevereiro.
Defesa da honra e trajetória
Durante o interrogatório, Geraldo Neto, que se tornou réu por feminicídio e fraude processual, declarou: "Eu nunca fui bandido, doutor. Eu sempre salvei vidas, prendi criminosos". Ele reiterou que sempre pautou sua conduta pelos parâmetros da Polícia Militar, afirmando ter sido ensinado por sua mãe a agir corretamente e seguir princípios religiosos em seus 35 anos de carreira.
O oficial explicou que sua primeira reação após o ocorrido foi abrir a porta do apartamento para os policiais que chegavam, buscando afastar qualquer suspeita de adulteração da cena do crime.
Dependência financeira como entrave
Segundo o depoimento do tenente-coronel, a dependência financeira de Gisele era o principal obstáculo para a concretização do divórcio. Ele afirmou que, embora ambos manifestassem o desejo de se separar, a soldado disse em conversas ocorridas em novembro que não tinha condições financeiras de se manter sozinha e sustentar a filha do casal.
Geraldo relatou que a renda da esposa estava comprometida por empréstimos consignados e bancários, feitos para a construção de uma casa para os pais e para custear procedimentos estéticos, como próteses de silicone, rinoplastia e bichectomia. Após os descontos de dívidas e impostos, restavam a ela menos de R$ 1.000 por mês.
Para viabilizar a rotina da família, o tenente-coronel transferia voluntariamente entre R$ 1.500 e R$ 2.000 mensais para a conta de Gisele, além de arcar com despesas domésticas que, segundo afirmou, somavam cerca de R$ 10.000.
Busca por autonomia financeira
Geraldo declarou à polícia que buscou alternativas para garantir a autonomia financeira da esposa. Ele conversou com coronel e tenente-coronel responsáveis pela assessoria da Polícia Militar no Tribunal de Justiça para tentar uma vaga para Gisele, descrita como "muito concorrida" e com adicional de R$ 5.000 mensais.
A vaga foi confirmada em janeiro, com o plano de Gisele assumir o posto em 2 de março, após o carnaval. Com o novo rendimento, descontando os empréstimos, a renda dela chegaria a cerca de R$ 6.000, valor que, segundo ele, permitiria que ela alugasse um apartamento e vivesse de forma independente com a filha, viabilizando a separação definitiva.
O dia anterior à morte
Segundo o relato do tenente-coronel à Polícia Civil, na manhã de 17 de fevereiro ambos frequentaram a academia em horários distintos. Ao retornar, por volta das 11h, a soldado se trancou na suíte, onde passou a dormir com a filha pequena, e lá permaneceu durante todo o dia.
Por volta das 18h30, Geraldo sugeriu que tomassem um café, já que ele não havia almoçado. Gisele aceitou, e os dois se sentaram no sofá da sala, onde conversaram por aproximadamente duas horas. "Nós fizemos um resumo do nosso relacionamento desde 2023. E ali a gente conversou sobre vários fatores, prós e contras, vantagens e desvantagens de continuarmos juntos", afirmou.
Geraldo detalhou os planos para a independência financeira dela, informando sobre a vaga conseguida na assessoria da PM. O relato aponta que o momento teria sido carregado de emoção, com os dois se emocionando, abraçando e chorando. Após a conversa, segundo o depoimento, os dois tiveram uma relação sexual no sofá, descrita como "fazer amor pela última vez".
Apesar da proximidade no fim da conversa, Gisele teria afirmado que preferia "pensar direitinho" e não queria "bater o martelo" sobre a separação naquele instante. Assim, ficou acordado que a decisão definitiva sobre o futuro do casal seria tomada no dia seguinte, 18 de fevereiro.
Laudos e provas do feminicídio
Segundo o Ministério Público, laudos periciais, reprodução simulada e as mensagens analisadas indicam que o tenente-coronel segurou a cabeça de Gisele e atirou contra ela, descartando a hipótese de suicídio. Na sequência, ainda segundo a acusação, ele teria manipulado a cena do crime para simular que a soldado teria tirado a própria vida, o que fundamenta a imputação de fraude processual.
Gravações das câmeras corporais de policiais militares mostram a disputa de poder hierárquico entre um cabo, que queria preservar o local onde Gisele foi baleada na cabeça, e a autoridade de um oficial de alta patente, o marido dela. As imagens foram feitas no dia do crime.
Geraldo insiste em entrar no banheiro, tomar banho e circular pelo apartamento onde Gisele estava, exatamente o tipo de conduta que acendeu o alerta dos investigadores e enfraqueceu a versão de suicídio sustentada por ele. É essa soma de condutas que robustece a desconfiança sobre a tese de suicídio defendida por Neto.
Próximos passos e defesa
Como o feminicídio é classificado como crime doloso contra a vida, a tendência é que o caso seja julgado pela Justiça comum, possivelmente pelo Tribunal do Júri. O MP pediu que, em caso de condenação, seja fixada indenização mínima de R$ 100.000 aos familiares da vítima.
Este é o primeiro caso desde 2015 de um oficial da Polícia Militar de São Paulo preso por feminicídio, segundo a Secretaria da Segurança Pública. Na sexta-feira (20), o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou o pedido de liberdade feito pela defesa do tenente-coronel.
Durante audiência de custódia realizada por videochamada na Justiça Militar, Geraldo voltou a afirmar que a esposa cometeu suicídio. A defesa, por meio de nota, nega o crime, questiona a competência da Justiça Militar e afirma que o oficial colaborou com as investigações, reafirmando confiança na atuação das autoridades.



