Técnico de enfermagem algemado durante crise de ansiedade em unidade de saúde do Rio
Um caso grave de violência e despreparo no atendimento a pessoas neurodivergentes foi denunciado por Jadson Freire de Mendonça, técnico de enfermagem de 39 anos, na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Iguaba Grande, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro. O profissional relata ter sido agredido e algemado com violência durante uma crise associada ao transtorno do espectro autista na noite de sexta-feira (18).
Atendimento negado e agressões durante crise
Jadson procurou a unidade de saúde acompanhado da esposa, após um acidente de trânsito onde o carro em que estavam colidiu com um objeto na pista. A mulher sofreu um corte na cabeça e foi atendida rapidamente, recebendo sutura, mas segundo o técnico, a médica informou que não havia necessidade de mantê-la em observação. Jadson contestou a avaliação, pedindo que ela permanecesse em um leito por precaução, mas o pedido foi negado sob alegação de falta de vagas.
"Eu vi leitos desocupados ao circular pela unidade", afirma Jadson, que também relata não ter recebido atendimento específico para a crise de ansiedade que enfrentava, associada ao seu transtorno do espectro autista. Ele usava um tapa-olho devido à sensibilidade à luz, condição que, segundo ele, foi ignorada durante todo o episódio.
Conflito com seguranças e agressões físicas
O técnico conta que o conflito começou quando tentou sair do local e entrar novamente pela recepção. Ele foi barrado por um segurança que, segundo Jadson, fez ofensas e ameaças. O profissional admite ter empurrado o agente, mas relata que em seguida foi agredido por outros seguranças, algemado com violência e imobilizado no chão.
"Eu estava de tapa-olho, ou seja, de olhos fechados, e fui agredido nessa condição", desabafa Jadson, que afirma que as agressões continuaram mesmo após estar algemado. Após a confusão, ele foi levado à delegacia e, posteriormente, retornou à UPA, onde conseguiu novo atendimento e realizou exames de raio-x no rosto e no nariz.
Falta de preparo para atendimento neurodivergente
Jadson destaca o despreparo da unidade para lidar com pessoas neurodivergentes em situação de crise. Segundo ele, faltam capacitação e protocolos adequados para o atendimento de pacientes com transtorno do espectro autista em momentos de desregulação emocional.
O caso envolve um quadro conhecido como "meltdown", caracterizado por sobrecarga emocional, sensorial ou mental, que pode comprometer temporariamente o controle de reações e a comunicação, exigindo acolhimento e manejo especializado. "Há uma falta completa de preparo para situações como essa", afirma o técnico.
Busca por responsabilização e mudanças
Jadson diz que tentou contato com autoridades municipais, incluindo o prefeito, a secretária de Saúde e vereadores, mas não recebeu resposta. Ele pretende buscar responsabilização pelo caso e cobrar mudanças no atendimento a pessoas com deficiência e neurodivergentes na rede pública.
Nesta segunda-feira (20), ele passou por exame de corpo de delito no Instituto Médico-Legal e criou um perfil em rede social para reunir denúncias de maus-tratos contra esse público. "Precisamos de mudanças estruturais no atendimento", defende.
Versão da Prefeitura de Iguaba Grande
Em nota, a Prefeitura de Iguaba Grande informou que a esposa de Jadson deu entrada na UPA às 22h56 e recebeu atendimento cinco minutos depois. Segundo o município, o técnico também foi atendido de forma imediata por um quadro de crise hipertensiva e medicado.
A administração municipal afirmou que não houve negativa de socorro e que a equipe de segurança interveio para garantir a integridade de pacientes e profissionais. A prefeitura também declarou que o homem apresentou comportamento agressivo, desacatou a equipe e teria feito ameaças com um objeto perfurocortante, versão contestada por Jadson.
Ainda segundo o município, após ser levado à delegacia, ele retornou à unidade e tentou arrombar um portão de acesso de funcionários, causando danos ao patrimônio público. Registros de ocorrência por desacato e dano foram feitos. Sobre a denúncia da vítima ter sido agredida após estar imobilizado, a Prefeitura disse que só vai se posicionar após analisar as imagens.



