Operação da PF desvenda esquema bilionário com envolvimento de artistas e influenciadores
A Polícia Federal (PF) deflagrou uma operação de grande porte que investiga um esquema de lavagem de dinheiro e evasão de divisas estimado em mais de R$ 1,6 bilhão. Entre os 33 presos estão os cantores MC Ryan SP e MC Poze do Rodo, além de influenciadores digitais como Raphael Sousa Oliveira, criador da página Choquei, e Chrys Dias. As investigações revelaram uma estrutura complexa que utilizava empresas, figuras públicas e operações financeiras sofisticadas para ocultar a origem de recursos ilícitos.
Restaurante do funkeiro sob suspeita
Um dos focos da operação é o Bololô Restaurant & Bar, estabelecimento ligado ao cantor MC Ryan SP. De acordo com relatório de inteligência financeira, o local registrou uma movimentação superior a R$ 30 milhões entre abril de 2024 e outubro de 2025, valor considerado "flagrantemente incompatível" com seu porte e atividade econômica.
A PF sustenta que o restaurante funcionaria como um "veículo de integração" e possível "posto de arrecadação bancarizado" para a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Investigadores apontam que o local servia para o recolhimento da "cebola" – mensalidade paga por membros de facções à organização – com valores entre R$ 2 mil e R$ 10 mil, incompatíveis com consumo de refeições.
Manobra de blindagem patrimonial
Após ser alvo de buscas da Polícia Civil por supostos vínculos com o PCC e esquemas de rifas ilegais, MC Ryan SP saiu formalmente da sociedade do restaurante. Em seu lugar, entrou sua avó materna, que declara renda de R$ 25 mil, mas teve movimentações milionárias em sua conta pessoal.
Para a Polícia Federal, a substituição teria sido uma tentativa de "ocultar o beneficiário final" e "desvincular a imagem do artista" de transações suspeitas, mantendo o controle financeiro dentro do núcleo familiar. A avó funcionaria, segundo a investigação, como um "entreposto de liquidez" para o esquema.
Estrutura do esquema criminoso
O delegado Marcelo Maceira explicou em coletiva de imprensa que o dinheiro teria origem em:
- Apostas em bets ilegais
- Rifas digitais clandestinas
- Tráfico internacional de drogas
O esquema utilizava técnicas sofisticadas de lavagem de dinheiro, incluindo:
- Fracionamento de transferências (smurfing)
- Uso de criptomoedas
- Movimentações entre empresas e contas de terceiros
- Emprego de "laranjas" para dificultar rastreamento
Papel de influenciadores e empresas
Um dos pontos centrais do esquema era o uso de empresas ligadas ao setor artístico e de entretenimento para dar aparência legal ao dinheiro ilícito. Os valores eram utilizados para custear despesas da carreira artística dos investigados, incluindo cachê de shows.
Influenciadores e páginas de grande alcance nas redes sociais eram contratados para fazer a divulgação de plataformas de apostas e rifas, contribuindo tanto para a entrada de novos recursos quanto para a legitimação das operações.
"Essas pessoas públicas com muitos seguidores conseguem movimentar grandes quantias sem chamar atenção dos sistemas de compliance das autoridades e dos bancos", afirmou o delegado Maceira.
Patrimônio milionário e apreensões
Após passar pelas etapas de lavagem, os investigados acumularam patrimônios milionários através da compra de:
- Imóveis de alto valor
- Veículos de luxo
- Joias e bens de alto custo
Na operação batizada de Narco Fluxo, foram apreendidos veículos, valores em espécie, documentos, equipamentos eletrônicos, armas e até um colar com imagem do narcotraficante colombiano Pablo Escobar dentro de um mapa do estado de São Paulo.
Defesas se manifestam
O advogado de MC Ryan SP, Felipe Cassimiro, afirmou em nota que "o Bololô Restaurant não pertence ao Ryan, se tratou de um presente dele para a avó". Sobre as movimentações, destacou que "o Bololô é visto como um dos principais restaurantes de São Paulo, altamente frequentado, sobretudo por muitos famosos. A movimentação condiz com o tamanho do empreendimento".
A defesa de MC Poze do Rodo informou que "desconhece os autos ou teor do mandado de prisão" e que, com acesso aos documentos, "se manifestará na Justiça para restabelecer sua liberdade e prestar os devidos esclarecimentos ao Poder Judiciário".
A operação continua em andamento, com mandados cumpridos em São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Maranhão, Santa Catarina, Paraná, Goiás e Distrito Federal. Os envolvidos poderão responder pelos crimes de associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.



