Há exatos 25 anos, um simples recibo de conserto de óculos foi o elemento que levou à prisão de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, hoje apontado como chefe do Primeiro Comando da Capital (PCC). Naquela época, o documento fiscal serviu como prova para incriminar o então jovem criminoso, que já acumulava passagens por furtos e assaltos. Agora, em 2025, Marcola volta ao centro das investigações, alvo de uma nova operação do Ministério Público (MP) e da Polícia Civil de São Paulo contra a lavagem de dinheiro da facção.
A nova operação Vérnix
Nesta quinta-feira (21), a operação batizada de Vérnix resultou na expedição de um novo mandado de prisão contra Marcola, mesmo ele já estando detido no sistema penitenciário federal de Brasília. A ação também atingiu familiares do criminoso: o irmão Alejandro Camacho e os sobrinhos Paloma Sanches Herbas Camacho e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho. Ao todo, a Justiça expediu seis mandados de prisão preventiva, além de autorizar buscas e o bloqueio de bens que ultrapassam centenas de milhões de reais.
Segundo os investigadores, o esquema de ocultação de patrimônio do PCC utilizava empresas de fachada, entre elas uma transportadora com sede em Presidente Venceslau, no interior paulista, para movimentar recursos milionários e dar aparência legal ao dinheiro obtido com atividades ilícitas. O advogado Bruno Ferullo, que defende Marcola, afirmou que ainda vai se inteirar do caso. As defesas dos demais citados não foram localizadas.
Quem é Marcola
Nascido em 1968, em Osasco, na Grande São Paulo, Marcola tem 58 anos atualmente. Sua infância foi marcada pela pobreza e pela perda precoce da mãe. Ainda jovem, passou a viver nas ruas e iniciou a trajetória criminal com pequenos furtos na região central da capital paulista. O apelido que o tornaria conhecido nacionalmente surgiu nessa época, associado ao hábito de inalar cola de sapateiro.
Com o tempo, passou de crimes menores para assaltos a banco e acabou preso pela primeira vez em 1986. Durante o período no sistema prisional, aproximou-se de detentos que estruturavam o PCC, facção criada em 1993. Descrito por investigadores como articulado e leitor assíduo, Marcola ascendeu rapidamente na hierarquia e assumiu o controle da organização no início dos anos 2000, após disputas internas. Preso desde 1999, ele segue em regime fechado e acumula condenações que somam centenas de anos por crimes como tráfico de drogas, roubos a banco e homicídios.
Liderança e poder atrás das grades
Mesmo atrás das grades, Marcola é apontado como responsável por comandar as ações da facção, que atua dentro e fora dos presídios. O PCC se consolidou sob sua liderança como a maior organização criminosa do país, com atuação no tráfico de drogas, armas e outros crimes, sendo considerada por algumas autoridades como uma máfia.
Um dos episódios mais marcantes ligados ao nome dele ocorreu em maio de 2006, quando a transferência de líderes da facção — incluindo o próprio Marcola — desencadeou uma onda de ataques coordenados em São Paulo. A ofensiva deixou mais de 560 mortos em poucos dias e é considerada a maior crise de segurança da história do estado.
A nova investigação
A atual operação que voltou a atingir o entorno de Marcola teve origem em 2019, após a apreensão de bilhetes e manuscritos dentro de um presídio paulista. A análise do material levou à abertura de inquéritos que revelaram uma complexa estrutura financeira da facção. De acordo com as investigações, o esquema utilizava contas de terceiros, depósitos fracionados e empresas para ocultar a origem dos valores. Parte dos recursos teria sido movimentada por operadores financeiros e distribuída entre integrantes da organização.
O MP e a Polícia Civil também miram na operação desta quinta a influenciadora Deolane Bezerra e o filho de criação dela, o influencer Giliard Vidal dos Santos. Deolane foi presa por suspeita de ter recebido valores provenientes desse sistema, o que ampliou o alcance da apuração para além do núcleo tradicional da facção. Ao mirar novamente Marcola, mesmo já preso, a operação busca desarticular a estrutura econômica que sustenta o PCC. Segundo investigadores, enfraquecer o núcleo financeiro é considerado essencial para reduzir o poder da organização criminosa.



