Tenente-coronel da PM preso por feminicídio relata que vivia como 'dois estranhos' com a esposa
PM preso por feminicídio diz que vivia como estranho da esposa

Tenente-coronel da PM preso por feminicídio relata relacionamento conturbado com a esposa

O tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, preso preventivamente por ser suspeito de matar a esposa Gisele Alves Santana com um tiro na cabeça dentro do apartamento do casal no Brás, Centro de São Paulo, afirmou em interrogatório à Polícia Civil que o casal vivia como "dois estranhos" e não dormia no mesmo quarto desde o final de julho de 2025.

Detalhes da véspera do crime

Durante o interrogatório realizado no 8º Distrito Policial, obtido com exclusividade pela TV Globo, Geraldo Neto contou como foi o dia anterior à morte da soldado. Segundo seu relato, na manhã do dia 17 de fevereiro, ambos frequentaram a academia em horários distintos: ele foi das 8h às 9h e Gisele das 9h às 10h.

Ao retornar, por volta das 11h, Gisele trancou-se na suíte, onde passou a dormir com a filha pequena, e lá permaneceu durante todo o dia. Por volta do meio-dia, ela solicitou que Geraldo buscasse uma marmita encomendada na portaria do prédio. Ele alega que pegou e entregou a refeição na porta do quarto.

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Ela, então, pegou a comida e alimentou-se sozinha em seu interior, enquanto ele passou a tarde na sala assistindo televisão. O policial afirma que a rotina de silêncio foi interrompida por volta das 18h30, quando Geraldo sugeriu que tomassem um café, já que ele não havia almoçado.

Conversa emocionada e relação sexual

Gisele aceitou e os dois sentaram-se no sofá da sala, onde conversaram por aproximadamente duas horas. "Nós fizemos um resumo do nosso relacionamento desde 2023. E ali a gente conversou sobre vários fatores, prós e contras, vantagens e desvantagens de continuarmos juntos", afirmou o tenente-coronel.

Geraldo detalhou os planos para a independência financeira dela, informando que havia conseguido uma vaga na assessoria da Polícia Militar no Tribunal de Justiça, o que lhe garantiria um adicional de R$ 5 mil. O relato aponta que o momento foi carregado de emoção, com ambos relembrando viagens e chorando abraçados.

Geraldo afirmou que, após a conversa, os dois tiveram uma relação sexual no sofá, a qual descreveu como "fazer amor pela última vez". "A gente sentou, conversou por duas horas. No final da conversa nós nos emocionamos muito, até nos abraçamos e choramos, com o rosto colado no outro, abraçado. Ali acabou criando um clima, porque quer queira quer não, tem uma química entre nós dois, né? Um amor, que pese a gente não estivesse mais tendo uma vida de casal, mais tinha um sentimento ali ainda", declarou.

Decisão adiada e orações

Apesar da proximidade no fim da conversa, o tenente-coronel alega que Gisele afirmou que preferia "pensar direitinho" e não queria "bater o martelo" sobre a separação naquele instante. Assim, ficou acordado que a decisão definitiva sobre o futuro do casal seria tomada no dia seguinte, 18 de fevereiro.

O tenente-coronel disse ainda ter ido para o seu quarto fazer orações, pedindo que ambos fossem iluminados para a decisão que viria no dia seguinte. "Então, eu fui para o meu quarto dormir, diz minhas orações, ela foi para o quarto dela dormir. Acredito que na quarta-feira, dia 18, ela tenha acordado até mais cedo, às 4h30, que ela falou para mim que ia começar a novena do Freio Gilson, a quaresma", relatou.

Laudos e provas do feminicídio

Segundo o Ministério Público, laudos periciais, reprodução simulada e as mensagens analisadas indicam que o tenente-coronel segurou a cabeça de Gisele e atirou contra ela, descartando a hipótese de suicídio. Na sequência, ainda segundo a acusação, ele teria manipulado a cena do crime para simular que a soldado teria tirado a própria vida, o que fundamenta a imputação de fraude processual.

Gravações das câmeras corporais de policiais militares mostram a disputa de poder hierárquico entre um cabo, que queria preservar o local onde Gisele foi baleada na cabeça – e a autoridade de um oficial de alta patente, o marido dela. As imagens foram feitas no dia do crime, em 18 de fevereiro.

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Geraldo insiste em entrar no banheiro, tomar banho e circular pelo apartamento onde Gisele estava, exatamente o tipo de conduta que acendeu o alerta dos investigadores e enfraqueceu a versão de suicídio sustentada por ele. Em conjunto, vídeos, áudios e horários oferecem à investigação mais do que uma linha do tempo: contextualizam a intenção e materializam a influência exercida na cena.

Próximos passos e posição da defesa

Como o feminicídio é classificado como crime doloso contra a vida, a tendência é que o caso seja julgado pela Justiça comum, possivelmente pelo Tribunal do Júri. O MP pediu que, em caso de condenação, seja fixada indenização mínima de R$ 100 mil aos familiares da vítima.

A defesa nega o crime, questiona a competência da Justiça Militar e afirma que o oficial colaborou com as investigações. O caso ocorre em meio às mudanças recentes na legislação: desde 2024, o feminicídio é crime autônomo, com penas de 20 a 40 anos de prisão.

Por meio de nota, o Tribunal de Justiça Militar (TJM) informou que a decisão de prender o coronel está amparada pelo fato de o oficial ter cometido um crime contra outro membro da corporação, uma soldado, que era sua esposa. Segundo a Secretaria da Segurança Pública, este é o primeiro caso desde 2015 de um oficial da Polícia Militar de São Paulo preso por feminicídio.

Na sexta (20), o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou o pedido de liberdade feito pela defesa do tenente-coronel. Na decisão, o ministro Reynaldo da Fonseca, relator do caso, apontou que o tipo de ação apresentado pela defesa só é cabível em situações específicas, o que não ocorreu neste caso.

Durante audiência de custódia realizada por videochamada na Justiça Militar, Geraldo voltou a afirmar que a esposa cometeu suicídio. A defesa, em nota enviada em 18 de março, afirma que "reitera que seguem sendo divulgadas informações e interpretações que alcançam aspectos de sua vida privada, muitas vezes por meio de conteúdos descontextualizados, ocasionando exposição indevida e repercussões que atingem sua honra e dignidade".