Pai de Rodrigo Castanheira desabafa sobre ausência do filho após agressão fatal por ex-piloto
Pai de Rodrigo Castanheira fala sobre ausência após agressão fatal

Pai de Rodrigo Castanheira descreve luto como "pesadelo horrível que não acaba" após morte do filho

"Parece um pesadelo horrível que não acaba. A gente não consegue entender as coisas. É uma falta, é uma ausência do Rodrigo... É desesperador". O desabafo é de Ricardo Almeida Castanheira, pai de Rodrigo Castanheira, de 16 anos, feito exatamente 20 dias após a morte do jovem agredido pelo ex-piloto Pedro Arthur Turra Basso em Vicente Pires, no Distrito Federal.

Última ligação e agonia familiar

Em entrevista ao g1 e à TV Globo, Ricardo e Isabella Torninn Fleury Castanheira, irmã do adolescente, falaram sobre o caso que chocou o Distrito Federal. "Qualquer coisa lembra ele. Na rua, dentro de casa. A bicicleta dele está com o pneu murcho que ele não encheu. O cobertor dele está lá", disse Ricardo, emocionado.

O pai contou que recebeu uma ligação do filho logo após a agressão ocorrida em 23 de janeiro. "Ele me ligou depois que foi agredido e falou assim: 'Pai, eu tô indo para casa com o pai do Arthur porque me bateram e eu tô muito machucado'. Foi a última coisa que ele falou para mim. Aí ele chegou em casa todo arrebentado, já. Saindo sangue pelo nariz, vomitando", relembrou Ricardo.

Pouco depois, segundo a família, o adolescente começou a passar mal e foi levado ao hospital. Ele não voltou a falar e morreu após mais de duas semanas de internação, totalizando 16 dias entre a agressão e o óbito.

Luto interrompido pela busca por justiça

Isabella Castanheira, de 22 anos, contou que a família passou noites em claro acompanhando os monitores da UTI e rezando por uma reação do irmão. Para a irmã, a família ainda não conseguiu viver o luto adequadamente devido às circunstâncias do caso.

"A gente precisa que seja feita a justiça pra gente poder viver o nosso luto. Para mim, o meu irmão faleceu no dia 23 mesmo. [...] Então tem mais de um mês que a gente não pode passar pelo luto, a gente abre no Instagram, a gente vê as injustiças, a gente não tem como ter paz", desabafou a jovem.

Estudante de medicina veterinária, Isabella disse que não conseguiu voltar aos estudos e ao trabalho após a morte do irmão. O pai e a mãe de Rodrigo também não retornaram às suas atividades profissionais. "Os meus pais perderam um filho, eu perdi a pessoa que eu pensei que ia passar o resto da vida comigo. Esse ano vou me formar e meu irmão não vai estar lá. Vou me casar e ele não vai estar lá", completou emocionada.

Cenas de deboche na delegacia

Isabella relatou ainda que ouviu risos e comentários de deboche por parte de pessoas ligadas a Pedro Turra, dentro da delegacia, no dia em que registrou a ocorrência. Naquele momento, Rodrigo já estava internado em estado grave após passar por cirurgia.

Segundo a irmã, os comentários a deixaram "completamente desolada". Ela afirma que um homem que depois identificou como advogado, e que estaria acompanhado de outras pessoas ligadas aos envolvidos, fazia insinuações sobre o estado do irmão.

"Falavam que ele era muito drogado, que estava muito bêbado, 'esse bêbado, canivete', não sei o quê", relatou. Em meio aos risos, segundo ela, também questionavam a ausência da vítima no local: "Por que a vítima não está aqui? Por que não veio prestar depoimento? Por que teve que chamar tanta gente no lugar dela?".

Uma prima, de acordo com ela, também presenciou a cena e teria escutado a frase: "Não se preocupa não, a gente está no Brasil, não vai dar nada não".

Andamento do caso e responsabilização

Pedro Turra, de 19 anos, é réu por homicídio doloso qualificado por motivo fútil. Ele cumpre prisão preventiva no Complexo Penitenciário da Papuda desde 2 de fevereiro. A família também pede que os demais presentes no dia das agressões sejam responsabilizados pelo caso.

Outras cinco pessoas acompanhavam o ex-piloto, segundo depoimentos colhidos pela Polícia Civil do Distrito Federal. O conflito teria começado por causa de um chiclete, evoluindo para uma briga física com socos e murros.

Com a morte de Rodrigo, o Ministério Público reclassificou o crime cometido por Pedro Turra, inicialmente investigado como lesão corporal gravíssima, para homicídio. Além da condenação criminal, o MP pediu que Pedro Turra seja obrigado a pagar R$ 400 mil por danos morais à família da vítima.

A defesa do ex-piloto Pedro Turra disse que não vai se manifestar sobre a denúncia. Já a defesa da família do adolescente Rodrigo Castanheira alega que o soco dado por Pedro Turra foi a causa direta da morte.

A Polícia Civil informou ao g1 que foi solicitado à defesa da família de Rodrigo que seja feito um pedido formal para que o médico do Instituto Médico Legal (IML) analise se as lesões são compatíveis ou não ao apresentado pelo laudo médico.