Polícia investiga se morte de PM Gisele foi suicídio ou feminicídio cometido pelo marido
Morte de PM: polícia apura se foi suicídio ou feminicídio do marido

Polícia investiga se morte de PM Gisele foi suicídio ou feminicídio cometido pelo marido

A morte da soldada da Polícia Militar Gisele Alves Santana, encontrada com um tiro na cabeça no apartamento do casal em São Paulo, no dia 18 de fevereiro, segue sob intensa investigação. O caso, inicialmente registrado como suicídio, foi reclassificado como morte suspeita após pressão da família, que contesta a versão apresentada pelo marido da vítima, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto.

Advogado da família acusa marido de histórico de violência

Em entrevista coletiva realizada nesta segunda-feira (16), o advogado Miguel Silva, representante da família de Gisele, afirmou que o tenente-coronel possui um histórico de ameaças e perseguições contra mulheres. Segundo ele, existem registros policiais e decisões judiciais que apontam episódios de ameaças contra ex-companheiras, além de denúncias de assédio e perseguição contra policiais militares mulheres subordinadas ao oficial dentro da corporação.

"Quando eu disse que o tenente-coronel é um violador, um assediador, já há muito tempo, eu fiz uma crítica ao comando da Polícia Militar e ao secretário da Segurança. Eu mantenho essa crítica, haja vista que ele deveria ter sido afastado já há muito tempo das suas funções", declarou o advogado, que sustenta a tese de feminicídio.

Boletins de ocorrência e processos judiciais

De acordo com Miguel Silva, uma ex-companheira do tenente-coronel registrou boletins de ocorrência contra ele entre 2009 e 2010. Em um dos registros, a mulher relatou sofrer perseguições e perturbações constantes, chegando a solicitar medida protetiva. "Tem um boletim de ocorrência de 2010 em que uma vítima, sua ex-mulher, diz que vem sofrendo vários problemas de perturbação de sua tranquilidade. A ex-mulher se socorre de medida protetiva e diz o seguinte: 'o autor mantém vigilância sobre a vítima, impedindo que ela se relacione com outras pessoas, ameaçando inclusive de morte'", detalhou o advogado.

Outro boletim de ocorrência, de 2022, aponta que uma vítima relatou estar sendo ameaçada dentro do próprio apartamento. Além disso, um processo judicial de 2022 reconheceu que houve assédio moral contra uma policial militar subordinada ao oficial, então major, que transferiu quatro agentes mulheres como forma de punição sem motivos legais.

Defesa do coronel sustenta versão de suicídio

Quase um mês após a morte, a defesa do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto mantém a versão de que a soldada cometeu suicídio. O advogado Eugênio Malavasi, que representa o coronel, afirmou ao g1 no sábado (14) que aguarda serenamente o desenrolar da apuração da Polícia Civil, confiando na palavra do cliente. "A defesa do tenente-coronel aguarda serenamente o desenrolar da apuração da Polícia Civil com a juntada de todos os laudos e externa a confiança na palavra do coronel: de que trata-se de suicídio. E isso será comprovado de forma cristalina ao final da investigação", disse.

Por outro lado, o advogado José Miguel da Silva Júnior, que defende os interesses da família de Gisele, subiu o tom ao alegar que a morte foi consequência de um crime. "Eu não tenho dúvidas que ele [coronel Geraldo] matou ela [Gisele]. Mas cabe a polícia provar", afirmou.

Dúvidas na investigação e laudos periciais

A investigação, conduzida pela Polícia Civil, enfrenta várias inconsistências na versão apresentada pelo coronel. Segundo relatos, Geraldo afirmou que após uma discussão pediu a separação e foi tomar banho, e que, um minuto depois, Gisele teria pegado sua arma e disparado contra a própria cabeça, sem ele ver. No entanto, agentes que atenderam a ocorrência estranharam o fato de a arma ainda estar na mão da vítima, algo incomum em casos de suicídio.

Outros pontos que levantaram dúvidas incluem:

  • O coronel disse ter ido tomar banho, mas estava com o corpo seco quando as autoridades chegaram.
  • Ele telefonou para um desembargador amigo, que foi até o local antes da chegada da polícia.
  • Laudos periciais apontaram marcas de unhas e arranhões no pescoço da policial, além de lesões contundentes no rosto e sinais de disparo à queima-roupa.

Laudos já concluídos pela Polícia Técnico-Científica incluem:

  1. Laudo necroscópico: causa da morte por traumatismo decorrente de disparo encostado do lado direito da cabeça, com lesões no rosto e pescoço compatíveis com pressão digital e marcas de unhas.
  2. Laudo residuográfico: não detectou pólvora nas mãos do coronel ou de Gisele, gerando estranheza na hipótese de suicídio.
  3. Laudo da trajetória do tiro: de baixo para cima.

Ainda aguardam juntada ao inquérito o laudo toxicológico e o laudo do local da morte, com registros fotográficos da posição do corpo. Peritos já adiantaram que encontraram marcas de sangue no banheiro, o que causou estranheza, já que Gisele foi encontrada morta em outro cômodo.

Reconstituição e depoimentos

O coronel, que se afastou do trabalho após a morte da esposa, participou da reconstituição do caso no último dia 23 de fevereiro, na residência do casal no Brás, Centro de São Paulo. Sua defesa quer que ele volte a depor no 8º Distrito Policial após a conclusão dos exames periciais restantes.

Na sexta-feira (13), o ex-marido de Gisele, que teve uma filha com ela, prestou depoimento e afirmou que a soldada "nunca pensou em cometer suicídio". Ele também comentou que Geraldo não gostava da criança, que agora deve ficar sob sua guarda.

Investigações paralelas

Paralelamente à apuração da Polícia Civil, a Polícia Militar instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM) após receber denúncias anônimas relatando que o casal vivia uma relação marcada por ameaças, perseguição e instabilidade emocional atribuídas ao tenente-coronel. A Justiça determinou a redistribuição do caso para a Vara do Júri, por entender que há indícios de crime doloso contra a vida, categoria que inclui feminicídio.

As investigações continuam em andamento, com a delegacia aguardando os resultados dos laudos complementares para concluir o inquérito e determinar se houve suicídio ou crime. A família e a defesa de Gisele alegam que já existem elementos suficientes para pedir a prisão preventiva do coronel, citando testemunhas que têm "pavor dele" e alteração da cena da morte.