Menor investigado por estupro coletivo em Copacabana presta depoimento à Justiça
O adolescente de 17 anos acusado de participar de um estupro coletivo em Copacabana prestou depoimento nesta terça-feira, 14 de abril de 2026, perante a Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro. A audiência de instrução do processo também ouviu testemunhas sobre o crime que chocou a Zona Sul carioca e gerou ampla repercussão.
Entrega após mudança de entendimento do Ministério Público
O menor se entregou voluntariamente na 54ª Delegacia de Polícia de Belford Roxo no início de março, após uma significativa mudança de posicionamento do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ). Inicialmente contrário à aplicação de medida socioeducativa de internação, o MPRJ revisou seu entendimento diante de novas denúncias de violência sexual envolvendo os investigados e passou a defender a internação do adolescente.
Até então, o Ministério Público havia discordado da Polícia Civil sobre a necessidade da medida socioeducativa, embora tivesse apoiado a prisão preventiva dos quatro adultos envolvidos no mesmo caso. A mudança de posicionamento ocorreu quando surgiram informações adicionais sobre o padrão de comportamento dos acusados.
Os outros acusados e o cenário do crime
Os outros quatro indiciados no caso – Bruno Felipe dos Santos Allegretti (18 anos), Vitor Hugo Oliveira Simonin (18 anos), João Gabriel Bertho Xavier (19 anos) e Mattheus Veríssimo Zoel Martins (19 anos) – também se entregaram às autoridades. O crime teria ocorrido em 31 de janeiro em um apartamento localizado em Copacabana, propriedade do pai de Vitor Hugo, José Carlos Simonin, que na época ocupava o cargo de subsecretário da Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos.
Em meio à forte repercussão do caso, José Carlos Simonin foi exonerado do cargo público que ocupava, demonstrando como as consequências do episódio ultrapassaram a esfera criminal e atingiram a administração pública estadual.
Detalhes da dinâmica do crime
Segundo as investigações, o menor teria atraído uma adolescente de 17 anos para o apartamento em Copacabana, sugerindo inicialmente que ela levasse uma amiga para acompanhá-la. A vítima teria respondido que não conseguira companhia, mas que não via problema em ir sozinha ao encontro.
Imagens de câmeras de segurança obtidas pela polícia mostram que os quatro adultos chegaram ao apartamento antes da vítima. Quando a adolescente estava no elevado, foi informada que os amigos do rapaz estavam no local e poderiam fazer "algo diferente", proposta que ela prontamente recusou.
Os eventos que se seguiram foram assim descritos nas investigações:
- Enquanto o menor e a vítima mantinham relação sexual, os quatro adultos entraram no quarto
- Após insistência do adolescente, a vítima aceitou que eles permanecessem no cômodo, desde que não a tocassem
- Segundo o depoimento da adolescente, os homens não respeitaram esse acordo
- Eles tiraram a roupa e começaram a apalpá-la contra sua vontade
- Forçaram-na a praticar sexo oral e a ser penetrada por todos eles
- Durante a agressão, também a chutaram, socaram e estapearam
- A vítima tentou sair do local, mas foi impedida pelos agressores
O relatório policial ainda registra que, após a vítima deixar o edifício, o menor foi visto fazendo gestos de comemoração aos amigos, comportamento que reforçou a gravidade das acusações.
Provas coletadas e medidas judiciais
A vítima procurou a 12ª Delegacia de Polícia de Copacabana para registrar queixa e foi submetida a exame de corpo de delito que identificou diversas lesões compatíveis com violência física e sexual:
- Infiltrado hemorrágico
- Escoriação na região genital
- Sangramento vaginal
- Manchas nas regiões dorsal e glútea
Materiais biológicos foram coletados para exames genéticos e análise de DNA, que poderão corroborar as alegações da vítima. Com base nas investigações, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro ofereceu denúncia por estupro com concurso de pessoas.
O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro expediu mandados de prisão preventiva pela 1ª Vara Especializada em Crimes Contra Crianças e Adolescentes. A polícia chegou a deflagrar a operação "Não é Não" para cumprir as ordens judiciais, mas inicialmente não localizou nenhum dos quatro jovens adultos.
Repercussões institucionais e sociais
O caso gerou consequências significativas além do âmbito criminal, com instituições de ensino e organizações esportivas tomando medidas disciplinares contra os envolvidos:
- A Reitoria do Colégio Pedro II e a Direção-Geral do Campus Humaitá II afastaram dois dos jovens acusados: o menor de idade e Vitor Hugo
- A Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) suspendeu por 120 dias o aluno Bruno Felipe
- O Serrano Football Club afastou João Gabriel e rompeu o contrato com o atleta
O depoimento prestado nesta terça-feira representa mais uma etapa no processo judicial que busca apurar responsabilidades e aplicar as medidas cabíveis diante da gravidade das acusações. A sociedade carieca acompanha com atenção o desdobramento do caso, que coloca em evidência questões cruciais sobre violência sexual, responsabilidade penal de adolescentes e a eficácia do sistema de justiça.



