Brasil tem mais de 300 condenados ou suspeitos de feminicídio foragidos da Justiça
Mais de 300 foragidos por feminicídio no Brasil

Brasil registra mais de 300 condenados ou suspeitos de feminicídio foragidos da Justiça

Um levantamento exclusivo identificou que existem 336 mandados de prisão por feminicídio pendentes de cumprimento em todo o território nacional. Desse total, ao menos três indivíduos estão incluídos na lista dos criminosos mais procurados do Brasil, conforme dados do Banco Nacional de Medidas Penais e Mandados de Prisão (BNMP) do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Procurados na lista nacional de criminosos perigosos

A ferramenta Projeto Captura, que começou a operar em dezembro do ano passado, reúne governos estaduais e o governo federal no combate ao crime organizado. Cada estado pode indicar até oito nomes para constarem da lista de mais procurados. Entre os indicados dos estados de Sergipe, Tocantins e Rondônia, há foragidos com mandado de prisão em aberto pelo crime de feminicídio.

Casos emblemáticos de feminicídios com mandados pendentes

Gisélio Monteiro dos Santos é um dos procurados, com um mandado de prisão preventiva em aberto desde 2018 pelo Tribunal de Justiça de Sergipe. Ele é acusado de tentativa de feminicídio em julho de 2010, no povoado Massapê, zona rural de Riachuelo, a 23 quilômetros de Aracaju. Conhecido pelos apelidos "Adelmo", "Saruê Pau" ou "Brother", Gisélio acumula oito mandados de prisão ou internação por crimes como roubo, estupro, dano ao patrimônio e latrocínio.

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Cláudio Jerre Alexandre Dias é considerado foragido após ser condenado a 42 anos de prisão pelo assassinato da ex-companheira em Gurupi (TO), em maio de 2022. O crime ocorreu com agressões repetidas na cabeça usando um pedaço de concreto, na frente dos filhos da vítima. A defesa alegou legítima defesa, mas a investigação apontou histórico de violência, incluindo agressão anterior com uma picareta e medida protetiva em vigor. Cláudio também é procurado por homicídio qualificado, tráfico de drogas e associação para o tráfico.

Márcio Moreira Arruda é acusado de assassinar a esposa em dezembro de 2023, na zona rural de Rio Pardo, distrito de Porto Velho (RO). A ordem de prisão foi divulgada publicamente em agosto de 2024, após tentativas frustradas de localização. Conforme relatos, o casal ingeria bebidas alcoólicas no dia do crime, e Márcio teria exibido uma arma antes dos disparos fatais. Ele fugiu para uma área de mata e permanece foragido.

Especialistas destacam desafios na proteção às mulheres

A jurista e advogada Soraia Mendes, que atuou na ADPF 779 e coordenou o Comitê para a América Latina e o Caribe de Defesa dos Direitos das Mulheres, afirma que o feminicídio costuma ser tratado de forma individualizada, como um caso isolado. "Mas o Estado, tanto no Poder Judiciário quanto no Poder Executivo, tem um papel relevante nesse contexto", diz ela. Segundo Soraia, políticas de proteção às mulheres passam necessariamente pela segurança pública, e o Brasil ainda tem um débito muito grande na responsabilização dos agressores.

Alice Bianchini, doutora em direito penal e integrante do Conselho Nacional do Direito da Mulher, explica que a justificativa de "não se conformar com o fim de um relacionamento" não explica o crime de feminicídio. "Na verdade, o que motiva o feminicídio nesses casos é o sentimento de posse", afirma. Ela destaca que a proximidade com a vítima aumenta as oportunidades para o crime, sendo o feminicídio íntimo mais comum que o não íntimo.

O que é a lista de procurados do Ministério da Justiça

A criação da lista de procurados foi determinada por uma portaria de 2023 do Ministério da Justiça, com os seguintes objetivos:

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  • Divulgar os nomes das pessoas cuja prisão é estratégica para o combate a organizações criminosas.
  • Auxiliar os órgãos de segurança a prender esses criminosos, a partir de denúncias anônimas da população (os telefones 190, 197 e 181 estão disponíveis).
  • Contribuir para a redução de indicadores de crimes graves, violentos, hediondos ou semelhantes.
  • Garantir o cumprimento da lei penal (apenas indivíduos com mandado de prisão podem entrar na lista).

Este cenário evidencia a urgência de medidas eficazes para coibir a violência contra as mulheres e assegurar que os responsáveis por feminicídios sejam devidamente responsabilizados, reforçando a necessidade de uma atuação integrada entre os poderes públicos e a sociedade.