A jovem Ana Clara Antero de Oliveira, que teve uma das mãos decepada e a outra gravemente ferida em uma tentativa de feminicídio, vivia um relacionamento conturbado há quase dois anos com Ronivaldo Rocha dos Santos, de 40 anos. O ataque ocorreu no dia 1º de novembro em Quixeramobim, no interior do Ceará, executado pelo cunhado da vítima, Evangelista Rocha dos Santos, de 34 anos, a mando do ex-companheiro.
Relacionamento abusivo e isolamento
Em entrevista à TV Verdes Mares, Ana Clara revelou que o namorado se tornou cada vez mais agressivo com o tempo, especialmente em momentos de ciúmes ou irritação. Para evitar brigas, ela abandonou o curso de Nutrição e deixou de frequentar a academia, atividades que apreciava. "Muito ciúmes, não deixava mais eu ir pra academia, não deixava eu estudar mais, era eu fazendo as vontades dele. E eu fazia as vontades dele porque eu imaginava: 'Não, eu vou fazer as vontades dele porque aí a gente não vai brigar'. Mas parece que, quanto mais eu fazia isso, mais existia briga", relatou.
Histórico de agressões
Ana Clara cresceu no distrito de Nenelândia, em Quixeramobim, e aos 15 anos mudou-se para mais perto do centro. Antes de morar com Ronivaldo, ela já havia sido agredida por ele ao tentar interferir na cobrança de uma dívida de agiotagem. "Ele se revoltou, deu um murro na minha boca. Eu cheguei lá na minha mãe num choro... Não esperava por aquilo. Nessa época, a gente não morava juntos. E, mesmo assim, eu tentei insistir em levar mais pra frente, porque [o relacionamento] tava no início", contou. Nos últimos meses, as agressões se intensificaram, incluindo golpes com um copo térmico nas pernas.
A noite do ataque
Na noite do crime, o casal havia saído para beber na casa de um amigo e depois foi a um restaurante. Ronivaldo ficou irritado quando Ana Clara quis voltar para casa por estar bebendo demais. Durante a discussão no carro, ele ameaçou deixá-la em casa e sair sozinho. Ana Clara jogou uma pedra no veículo. Surpreendentemente, Ronivaldo chamou o irmão Evangelista, que pulou o muro da casa dela e, armado com uma foice, a atacou. "No que eu abri, ele já pulou a janela e foi tacando… Tacou a foice, amputou minha mão. Foi tacando assim nos meus braços, nas minhas costas. Aí eu corri pro quarto. Tentei fechar a porta do quarto, mas não consegui. E ele começou a tacar [a foice], e eu me fiz de morta", relatou.
Recuperação e cirurgias
Ana Clara passou por três cirurgias: reimplante das mãos, recomposição de um tendão da perna e substituição de uma artéria no braço. Após 15 dias, ela começou a movimentar os dedos e aprendeu a usar o celular com os pés. A recuperação é acompanhada por psicólogos e assistentes sociais. "Meu medo era ficar sem as mãos", disse.
Irmãos viram réus
A Justiça Estadual aceitou a denúncia contra Evangelista e Ronivaldo por tentativa de feminicídio. Eles se tornaram réus no processo, que tramita em segredo de Justiça. O Ministério Público do Ceará pediu indenização de R$ 97 mil para a vítima. Ronivaldo já tinha antecedentes por lesão corporal, ameaça, agiotagem e porte ilegal de arma. O pai dos irmãos indicou à polícia onde eles estavam escondidos.
Ana Clara, que planeja voltar a morar com a família após a alta, alerta outras mulheres: "Procure uma ajuda psiquiátrica, psicológica, converse com um amigo… Se saia, não esconda".



