João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, de 83 anos, que já foi um líder religioso cultuado por suas cirurgias espirituais, agora enfrenta uma série de condenações por crimes sexuais. Em 2018, a cidade de Abadiânia, no Entorno do Distrito Federal, foi abalada por denúncias de abuso sexual e estupro feitas por dezenas de mulheres. O g1 buscou a defesa de João de Deus, que informou não dar mais declarações sobre o caso.
As denúncias ganharam repercussão internacional após o programa Conversa com Bial, da TV Globo, exibir entrevistas com 10 mulheres que relataram os abusos. Hoje, as condenações contra João de Deus somam quase 215 anos de prisão, conforme levantamento atualizado do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJ-GO). Desde 2021, ele cumpre prisão domiciliar devido à idade avançada e problemas de saúde crônicos, conforme alegado pela defesa. De acordo com a Polícia Penal de Goiás, ele usa tornozeleira eletrônica e não pode se aproximar de Abadiânia e das vítimas. Atualmente, reside em Anápolis, a cerca de 35 km da Casa Dom Inácio de Loyola.
Denúncias e condenações
João de Deus respondeu a 18 denúncias, sendo 16 por crimes sexuais, com mais de 200 mulheres formalizando depoimentos, segundo o promotor Luciano Meireles, que coordenou uma força-tarefa no Ministério Público de Goiás. Em entrevista ao g1, ele afirmou que a prisão domiciliar gerou indignação. “O MP tentou de tudo para que ele cumprisse a pena no presídio. Como não conseguimos, buscamos o máximo de proteção para evitar contato com potenciais vítimas. Isso traz indignação para as vítimas que confiaram no sistema”, disse.
Segundo o TJ-GO, são 67 vítimas nos processos, pois houve extinção de punibilidade por decadência ou prescrição em relação a 121 delas, que entraram como informantes. As penas atuais incluem: em 2019, posse ilegal de arma de fogo (1 ano de detenção, 3 anos de reclusão e 20 dias-multa) e violação sexual mediante fraude e estupro de vulnerável (16 anos, 4 meses e 20 dias); em 2020, estupro de vulnerável (30 anos, 4 meses e 15 dias) e estupro e estupro de vulnerável (29 anos e 2 meses); em 2021, violação sexual mediante fraude (arquivado por decadência); em 2022, dois processos de violação sexual e estupro de vulnerável (13 anos e 9 meses e 22 anos e 6 meses); em 2023, violação sexual e estupro de vulnerável (27 anos), extinção de punibilidade em dois casos, violação sexual (3 anos e 4 meses), dois processos com penas de 29 anos e 6 meses e 30 anos, 1 mês e 15 dias, sentença cassada em um, estupro e violação (9 anos), e crime contra relações de consumo (arquivado). Em 2025, há um processo de estupro de vulnerável em fase de alegações finais. O total das penas somadas em maio de 2026 é de 214 anos, 1 mês e 20 dias de reclusão e 1 ano de detenção. A maioria dos processos aguarda julgamento de Recurso Especial no STJ, podendo as penas serem alteradas.
História e legado
João de Deus nasceu em junho de 1942 em Cachoeira de Goiás, caçula de seis filhos. Aos 9 anos, relata sua primeira experiência mediúnica, prevendo uma tempestade. Após ouvir uma voz para procurar um centro espírita, desmaiou e acordou após incorporar uma entidade e curar cerca de 50 pessoas. Em 1976, fundou a Casa Dom Inácio de Loyola em Abadiânia, onde realizava atendimentos e recebia pacientes do Brasil e do exterior, incluindo artistas de Hollywood e políticos. Durante as investigações, o MP não pediu o fechamento da Casa, por entender que a instituição e a fé não se relacionavam com os atos de João de Deus. A Casa permanece aberta, mas com movimento reduzido.
Impacto e mudanças
O promotor Luciano Meireles destacou a importância da imprensa, que começou com o programa Conversa com Bial. Após a exibição, o MP divulgou contatos para denúncias e recebeu dezenas de relatos. “A gente não tinha noção do que seria. Dezenas de pessoas entraram em contato. Foi a partir daí que passamos a compreender o caso”, afirmou. A quantidade de tempo dos abusos e o número de vítimas impressionaram a equipe, com relatos de mulheres de várias idades e regiões. A maioria das vítimas tinha entre 25 e 30 anos. Muitas pediam para não serem ouvidas novamente e temiam que familiares soubessem. O MP recebeu relatos de abusos na infância, mas esses crimes prescreveram.
João de Deus se entregou à polícia em 16 de dezembro de 2018, dois dias após a prisão preventiva. Declarou-se inocente e disse que se entregaria “à justiça divina e à Justiça da Terra”. Em março de 2020, obteve prisão domiciliar, revogada meses depois, retornando ao presídio em agosto. Desde 2021, está em prisão domiciliar em Anápolis. O promotor Luciano Meireles afirmou que as condenações em primeira instância somavam mais de 500 anos. O caso é um marco para a Justiça brasileira, exemplificando a importância da voz das mulheres. “Foi o primeiro caso em que a coragem de uma vítima encorajou outras, gerando uma cadeia de quebra de silêncio”, disse. Além disso, o caso motivou mudanças legislativas para um tratamento mais digno das vítimas em audiências, proibindo perguntas invasivas. “Antes, a vítima era julgada mais do que o réu. Hoje, evoluímos para a possibilidade de a vítima depor apenas uma vez, assegurando integridade psicológica”, pontuou.



