Justiça condena governo de SP por assédio moral de coronel da PM, marido de soldada morta
Governo de SP condenado por assédio moral de coronel da PM

Justiça condena governo de São Paulo por assédio moral de coronel da PM

A Justiça de São Paulo condenou o governo estadual ao pagamento de indenização por danos morais a uma policial militar que sofreu assédio moral do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, marido da soldada Gisele Alves Santana – encontrada morta com um tiro na cabeça em fevereiro. A decisão, proferida em outubro de 2024 pela 3ª Vara do Juizado Especial da Fazenda Pública da Capital, reconheceu que o oficial, então major, praticou ações repetitivas com o objetivo de atingir a autoestima e dignidade da sargento Valéria Barreto dos Santos.

Histórico de perseguição dentro da corporação

No processo, a policial relatou uma série de episódios de perseguição por parte do então major Geraldo Neto, que era seu comandante em um batalhão da Polícia Militar. Entre as situações citadas estão:

  • Acusações falsas de extravio de processos disciplinares, que poderiam levar a punições administrativas
  • Cobranças excessivas e fiscalização de horário direcionadas especificamente à policial
  • Repreensões e críticas feitas diante de outros integrantes da unidade, causando constrangimento público
  • Ameaças de transferência de unidade como forma de punição
  • Hostilidade no ambiente de trabalho após conflitos envolvendo policiais mulheres

O estado foi condenado ao pagamento de R$ 5 mil à autora da ação. Na decisão, a magistrada destacou que "aconteceram ações praticadas de forma repetitiva por servidor, em posição de autoridade, que abusando da autoridade que lhe conferia sua função, tinha por objetivo ou efeito atingir a autoestima e a autodeterminação da autora, bem como sua dignidade".

Padrão de comportamento contra mulheres

O advogado da família da soldada Gisele Santana, Miguel Silva, afirmou que o tenente-coronel Geraldo Neto tem um histórico de ameaças e perseguições contra mulheres. Segundo o profissional, há registros policiais e decisões judiciais que apontam episódios de ameaças contra ex-companheiras e denúncias de assédio contra policiais militares mulheres subordinadas ao oficial.

"É um histórico ameaçador, um histórico perseguidor", disse o advogado durante entrevista coletiva, criticando o comando da Polícia Militar por não ter afastado o oficial de suas funções anteriormente.

De acordo com as informações apresentadas pela defesa da família:

  1. Uma ex-companheira do tenente-coronel registrou boletins de ocorrência entre 2009 e 2010 relatando perseguições e perturbações constantes
  2. Em 2022, outra vítima registrou boletim de ocorrência por ameaças dentro de seu próprio apartamento
  3. Um processo judicial de 2022 reconheceu assédio moral contra uma policial militar subordinada ao oficial

Caso da soldada morta continua sob investigação

Quase um mês após a morte da soldada Gisele Santana, a defesa do tenente-coronel Geraldo Neto ainda sustenta a versão de que a policial cometeu suicídio com um tiro na cabeça no apartamento do casal em São Paulo. No entanto, o caso, registrado inicialmente como suicídio, passou a ser investigado como morte suspeita pela Polícia Civil.

A família da soldada contesta a hipótese de suicídio e alega que Gisele vivia uma relação tóxica com o coronel. A Justiça determinou a redistribuição do caso para a Vara do Júri, por entender que há indícios de crime doloso contra a vida – categoria que inclui feminicídio.

Laudos periciais reforçaram as dúvidas sobre a versão inicial do suicídio. Exames apontaram:

  • Marcas de unhas e arranhões no pescoço da policial
  • Lesões contundentes no rosto
  • Sinais de disparo à queima-roupa
  • Ausência de pólvora nas mãos tanto do coronel quanto de Gisele

Agentes que atenderam a ocorrência também estranharam o fato de que a arma que matou Gisele estava ainda em sua mão – algo incomum em casos de suicídio. Outro ponto que levantou dúvidas foi o fato de Geraldo Neto ter dito que tinha ido tomar banho, mas estar com o corpo seco quando as autoridades chegaram ao apartamento.

Investigações em andamento

A investigação da Polícia Civil aguarda os resultados de laudos complementares da Polícia Técnico-Científica para concluir o inquérito. Paralelamente, a Polícia Militar instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM) após receber denúncias anônimas relatando que o casal vivia uma relação marcada por ameaças, perseguição e instabilidade emocional atribuídas ao tenente-coronel.

O corpo da soldada chegou a ser exumado para novos exames, justamente porque ainda havia dúvidas sobre as circunstâncias da morte. A investigação não descarta formalmente o suicídio, mas também apura se Gisele foi vítima de feminicídio – hipótese defendida pela família e pelo advogado.

Na avaliação da defesa da família, a delegacia já teria elementos para pedir a prisão preventiva do coronel. "Existem requisitos para a prisão. Há várias testemunhas que têm pavor dele, houve alteração da cena da morte, o que já é suficiente para pedir a preventiva", afirmou o advogado Miguel Silva.