Ex-comandante da PM-SP é citado em inquérito sobre escolta ilegal a empresa ligada ao PCC
Ex-chefe da PM-SP citado em inquérito sobre PCC e escolta ilegal

Ex-comandante da Polícia Militar de São Paulo é citado em inquérito sobre suposta escolta ilegal a empresa ligada ao PCC

O coronel José Augusto Coutinho, ex-comandante-geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo, foi citado em um depoimento anexado a inquérito da Corregedoria da PM que investiga a participação de policiais militares em escolta ilegal a dirigentes de uma empresa de ônibus com supostas conexões com o Primeiro Comando da Capital (PCC), na capital paulista. Coutinho deixou o cargo na quinta-feira, 16 de maio, e sua saída pode estar relacionada a esta e outras investigações em que seu nome aparece, além de suspeitas de proteção a policiais envolvidos com o crime organizado.

Depoimento revela conversa sobre "bicos" ilegais

Em depoimento dado à Corregedoria da PM e revelado em primeira mão pelo jornal O Globo, o sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário, preso em 4 de fevereiro por fazer segurança privada para diretores da empresa Transwolff, afirmou que Coutinho, então major e comandante da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), tentou convencê-lo a permanecer na tropa de elite da instituição. O sargento relatou que Coutinho teria dito: "Romano, eu não posso obrigar você a sair da Rota. Por quê? Meu irmão faz bico até hoje. Meu pai sustentou a gente fazendo bico. Sabe que as coisas aí 'tá difícil', né? Porém, né, pelo que está aqui, tem bandido fazendo bico lá, meu, e você sabe como é que é".

O chamado "bico" realizado por PMs é considerado ilegal e expressamente proibido pela corporação. A Transwolff está sendo investigada no âmbito da Operação Fim da Linha, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público em abril de 2024, que apura crimes de lavagem de dinheiro, fraude em licitações públicas e organização criminosa. Segundo promotores, a empresa agia para favorecer o PCC.

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Defesa do coronel contesta implicações da citação

Em nota oficial, a defesa do coronel José Augusto Coutinho, através do escritório Fernando José da Costa Advogados, afirmou que não teve acesso aos autos do inquérito mencionado. O texto esclarece que "a mera citação em procedimento investigativo não implica, por si só, qualquer juíço de responsabilidade ou envolvimento em irregularidades, tratando-se de medida comum no âmbito de apurações preliminares". A nota ainda ressalta que Coutinho reitera "a absoluta lisura de sua atuação ao longo de mais de 34 anos de carreira na Polícia Militar do Estado de São Paulo", período em que nunca respondeu a processos ou investigações por irregularidades.

Esquema investigado inclui "laranjas" e CNPJs fantasmas

O esquema envolvendo a Transwolff, segundo as investigações, incluía o uso de "laranjas" e "CNPJs fantasmas" para ocultar a origem dos recursos do crime organizado. Diante das suspeitas, a Prefeitura de São Paulo abriu, há dois anos, processo de rescisão dos contratos com a empresa, que sempre negou qualquer vínculo com o PCC. Em fevereiro deste ano, três policiais militares foram detidos como desdobramento da investigação, incluindo o sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário.

De acordo com o inquérito, os PMs fizeram segurança privada entre 2020 e 2024 para o dono da Transwolff, Luiz Carlos Efigênio Pacheco, conhecido como Pandora (atualmente preso), e para Cícero de Oliveira, o Té (que responde solto pelos crimes). Outros depoimentos ouvidos pela Corregedoria da PM indicaram suspeitas de que Coutinho teria oferecido proteção ou mostrado inação em relação ao possível envolvimento de policiais com o PCC e no vazamento de informações sobre investigações sigilosas.

Mudanças no comando da PM-SP marcam nova fase

A saída de Coutinho do comando da Polícia Militar de São Paulo também marca o que fontes ouvidas pela GloboNews classificaram como "o fim da era Derrite" e o início de uma "nova geração de oficiais", em referência à gestão de Guilherme Derrite como secretário estadual de Segurança Pública. Derrite deixou o cargo no final do ano passado e foi substituído por Nico Gonçalves.

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No lugar do coronel Coutinho, assumiu a coronel Glauce Anselmo Cavalli, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo em quase 200 anos de história da corporação. Como novo subcomandante, assume o coronel Mário Kitsuwa, atual comandante do Comando de Policiamento Metropolitano Nove. Nos últimos meses, a gestão do governador Tarcísio de Freitas promoveu mudanças significativas na Corregedoria da PM e no Setor de Inteligência da corporação, com nenhum dos nomes da chamada "alta cúpula da PM" vindo de indicações de Derrite, que retornou à Câmara dos Deputados e deve concorrer a uma vaga no Senado nas eleições deste ano.

A Polícia Militar de São Paulo, também em nota, afirmou que não comenta investigações em curso conduzidas por sua Corregedoria, "tendo em vista o sigilo legal que recai sobre os procedimentos de Polícia Judiciária Militar". A instituição ressaltou que eventuais apurações são conduzidas com rigor técnico e observância ao devido processo legal.