Polícia Civil do Pará investiga conduta misógina de delegado em grupo de conversas
A Corregedoria da Polícia Civil do Pará está apurando a conduta do delegado Carlos Guilherme Santos Machado, que atua em Abaetetuba, no nordeste do estado, após a divulgação de mensagens consideradas misóginas em um grupo de trabalho. As mensagens, que circularam em prints, mostram o delegado fazendo comentários ofensivos direcionados especificamente a mulheres colegas de trabalho.
Comportamento já era conhecido na delegacia
Segundo uma servidora que preferiu não se identificar, o comportamento do delegado já era do conhecimento geral dos funcionários da delegacia de Abaetetuba. "Era do conhecimento geral dos servidores da delegacia que ele tinha comportamentos de ofender algumas pessoas, principalmente mulheres", revela a testemunha. Ela acrescenta que ninguém tomava providências por medo da posição hierárquica do delegado.
A servidora explica que decidiu denunciar a situação mesmo com receio: "Estou com medo, mas foi necessário ter coragem para não deixar continuar". O episódio que motivou a denúncia ocorreu às vésperas do Dia Internacional da Mulher, quando em um grupo funcional foi questionado sobre a possibilidade de um café da manhã comemorativo.
Mensagem ofensiva gera indignação
Em resposta à pergunta sobre o café da manhã, o delegado Carlos Guilherme escreveu: "café da manhã não garanto, mas se quiser uma pia cheia de louças, a gente providencia. É pra 'vcs' se sentirem em casa nesse dia especial". A mensagem foi interpretada pelas colegas como profundamente ofensiva e misógina.
"Não fomos tratadas como iguais, fomos tratadas de uma forma, ao meu entender e das minhas colegas, extremamente misógina. Ele mandou que a gente lavasse prato e foi uma coisa que nos ofendeu muito", declara a servidora. Ela defende que as mulheres da equipe desempenham funções tão importantes quanto as do delegado: "Nós saímos todos os dias de nossas casas, deixamos nossos filhos, nossos maridos e nossas famílias para proteger a sociedade, tal qual ou muito mais do que ele".
Antecedentes criminais do delegado
A investigação sobre a conduta misógina do delegado ganha contornos ainda mais graves quando se analisa seu histórico profissional. Carlos Guilherme Santos Machado possui antecedentes criminais na Paraíba, onde atuava como promotor de justiça antes de ingressar na Polícia Civil do Pará.
No mês passado, ele foi condenado a 7 anos e 6 meses de prisão por atentado violento ao pudor, crime que atualmente integra o tipo penal de estupro. Segundo a sentença, a vítima foi atraída sob um pretexto falso e, ao chegar à residência do então promotor, foi submetida à violência sexual. A defesa do ex-promotor afirma que "está convicta da inocência do Sr. Carlos Guilherme e trabalha ativamente para demonstrá-la nos autos".
Histórico de violência e ingresso na polícia
Além da condenação por violência sexual, Carlos Guilherme perdeu o cargo de promotor na Paraíba em 2015 após um episódio em que atirou no pé do cunhado durante uma discussão familiar em Cajazeiras, no sertão paraibano. Os dois casos ocorreram em 2009 e resultaram na abertura de processos criminais e administrativos.
Apesar desse histórico, o ex-promotor conseguiu ingressar na Polícia Civil do Pará em 2022 por decisão judicial, mesmo após ser reprovado na investigação social do processo seletivo. Ele enfrentou questionamentos durante a etapa de investigação social do concurso para delegado, mas assumiu o cargo após uma decisão judicial favorável.
Procedimento administrativo e afastamento
A Corregedoria da Polícia Civil do Pará instaurou um procedimento administrativo para apurar a conduta do delegado após as mensagens misóginas virem à tona. A Polícia Civil informou que o delegado será afastado do cargo, mas não divulgou a data nem detalhes sobre as condições do afastamento.
A defesa do delegado, quando procurada, não se manifestou sobre as mensagens ofensivas. A Polícia Civil do Pará também afirmou que ainda não foi notificada oficialmente sobre a condenação criminal do delegado na Paraíba.
O caso expõe questões preocupantes sobre os mecanismos de controle interno nas instituições policiais e os desafios enfrentados por mulheres que atuam em ambientes tradicionalmente masculinos. A servidora que denunciou o caso representa a coragem de quem decide romper o silêncio mesmo diante de possíveis retaliações.



