Justiça condena coaches a 17 anos por exploração sexual em curso de conquista em São Paulo
Coaches condenados a 17 anos por exploração sexual em curso

Coaches condenados a mais de 17 anos por exploração sexual em curso milionário

A Justiça Federal de São Paulo impôs uma sentença severa a dois indivíduos envolvidos em um esquema transnacional de exploração sexual disfarçado de curso de desenvolvimento pessoal. O norte-americano Mark Thomas Firestone e o brasileiro Fabrício Marcelo Silva de Castro Junior foram condenados a 17 anos e 6 meses de prisão em regime fechado por crimes de exploração sexual e favorecimento à prostituição.

O esquema do "Círculo Social de Milionários"

O magistrado federal Caio José Bovino Greggio, da 4ª Vara Criminal Federal, determinou a condenação após comprovar que os réus atuavam na organização do grupo "Millionaire Social Circle". Este era divulgado como um curso de conquista voltado para homens estrangeiros, com valores que variavam de US$ 12 mil a US$ 50 mil.

Conforme detalhado no processo, o grupo promovia jantares e uma festa em uma mansão no bairro do Morumbi, na Zona Sul de São Paulo, em fevereiro de 2023. O objetivo era induzir mulheres jovens a situações de exploração sexual, utilizando promessas indiretas de vantagens econômicas, status social e relacionamentos afetivos como isca.

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Ardil e organização deliberada

Na sentença, o juiz destacou a atuação deliberada e organizada dos condenados. "Agindo com ardil, induziram e atraíram as vítimas a este esquema transnacional de exploração sexual", afirmou o magistrado. Ficou comprovado que as mulheres foram atraídas para um ambiente previamente planejado para favorecer contatos de natureza sexual, caracterizando exploração mesmo sem pagamento direto.

Mark Thomas Firestone, que também usava os pseudônimos David Bond e Steven Mapel, atuava como um dos líderes do grupo e instrutor do curso. Já Fabrício Marcelo Silva de Castro Junior, que se apresentava como "mentor de homens", foi responsável por parte da logística, incluindo a locação do imóvel, contratação de serviços e organização do evento.

Vítimas e aumento da pena

A Justiça considerou que o esquema atingiu ao menos sete vítimas e envolveu prática reiterada de crimes, o que levou ao aumento da pena. Além da prisão, foi fixado o pagamento de 24 dias-multa. O juiz determinou a manutenção da prisão preventiva do brasileiro, citando risco de fuga, enquanto o norte-americano poderá recorrer em liberdade.

Investigação e descobertas

As investigações tiveram início após denúncia da Embratur (Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo) à Polícia Federal. Em 2023, o g1 revelou que coaches estrangeiros promoveram uma festa em uma mansão para usar mulheres como "cobaias" para alunos do curso.

O inquérito policial apurou que:

  • Mulheres conheciam "alunos" dos coaches pela internet e eram convidadas para jantares em grupo e posteriormente para a festa.
  • Vídeos feitos durante os encontros eram utilizados em peças publicitárias do curso sobre como conquistar mulheres, sem o conhecimento das participantes.
  • Adolescentes estiveram presentes no evento, incluindo uma jovem de 17 anos cujo pai a reconheceu em imagens da festa.

O curso e seus métodos

O curso era oferecido a estrangeiros de vários países e incluía uma viagem de duas semanas. Além do Brasil, houve edições na Costa Rica, Colômbia e Filipinas. Em materiais promocionais, os coaches exibiam um kit com pílulas do dia seguinte, camisinhas e perfumes com feromônios.

Um anúncio da viagem ao Brasil dizia: "Venha explorar com David e Mike e conheça as mulheres brasileiras ao relento do mundo que são conhecidas por serem divertidas, curvilíneas e apaixonadas".

Defesa e terceiro réu

As defesas dos condenados manifestaram inconformismo com a decisão. Os advogados de Fabrício afirmaram que a sentença "não reflete a realidade dos autos" e prometem recorrer. Já a defesa de Mark Thomas Firestone apontou "supostas fragilidades nos fundamentos da condenação".

O chinês Ziqiang Ke, conhecido como Mike Pickupalp, também era réu no processo, mas não foi julgado porque não foi localizado. Seu caso foi desmembrado e o processo está suspenso.

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Relatos das vítimas

Mulheres que participaram dos eventos relataram sentir-se enganadas. Uma das vítimas afirmou: "Não fui obrigada, mas fui aliciada, manipulada para estar ali". Outra disse ter visto vídeos publicados em que ela aparecia com os alunos da mentoria, o que a levou a denunciar o caso.

As investigações do 34º DP de São Paulo ouviram 17 pessoas, entre vítimas de 17 a 24 anos e testemunhas, consolidando as provas que fundamentaram a histórica condenação.