PF aponta chefe da Polícia Civil de Alagoas em esquema de fraudes em concursos públicos
Chefe da Polícia Civil de Alagoas em esquema de fraudes em concursos

PF desvenda esquema de fraudes em concursos com chefe da Polícia Civil de Alagoas

Uma investigação da Polícia Federal, acessada pelo Fantástico neste domingo (22), expôs a complexidade e o alcance de organizações criminosas envolvidas em fraudes de concursos públicos. O esquema, segundo a PF, incluía o chefe da Polícia Civil de Alagoas como um dos mentores, atingindo processos de grande porte como o Concurso Nacional Unificado (CNU), além de concursos das Polícias Civis, da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil.

Métodos sofisticados de fraude

As quadrilhas conseguem burlar protocolos de segurança rigorosos e movimentar cifras milionárias em troca de vagas no serviço público, explorando brechas e falhas de fiscalização. Entre os métodos mais comuns identificados pelas autoridades estão:

  • Ponto eletrônico implantado cirurgicamente: na operação mais recente, a PF confirmou o uso de dispositivos eletrônicos inseridos no corpo dos candidatos, que só podiam ser removidos por procedimento médico, permitindo a recepção de informações externas durante a prova.
  • Falsificação de documentos e de identidade: candidatos são substituídos por terceiros que realizam as provas em seu lugar ou apresentam documentos falsos para efetivar a contratação, exigindo coordenação minuciosa e envolvimento de profissionais de diversas áreas.
  • Acesso antecipado ao conteúdo das provas: integrantes das quadrilhas conseguem ilegalmente o conteúdo das provas antes da aplicação, permitindo a preparação estratégica dos candidatos ou a manipulação direta das respostas.
  • Uso de "boneco": alguém pago para fazer a prova no lugar do candidato, como professores ou concurseiros experientes, com suborno de vigilantes, desligamento de câmeras e uso de documentos falsos.

Esses métodos demonstram que as quadrilhas operam como organizações estruturadas, com divisão de tarefas, hierarquia definida, ramificações em diversos estados e serviços complementares, desde quem aplica as provas até operadores financeiros que administram os lucros obtidos ilegalmente.

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Valores milionários e personagens centrais

Os valores envolvidos são milionários, com a Polícia Federal afirmando que os preços variavam conforme o cargo. Para funções mais altas, como auditor fiscal, o valor podia chegar a R$ 500 mil por aprovação. Alguns beneficiados não tinham condições de pagar à vista e faziam acordos, incluindo parcelamentos e entrega de bens como carros e viagens.

Um dos personagens centrais do esquema é Waldir Luiz de Araújo Gomes, conhecido como "Mister M", que trabalhava na Cesgranrio, organizadora do CNU, e depois entrou no Tribunal Regional da Paraíba. Segundo a PF, ele teve acesso antecipado às provas e explicava como violar os envelopes sem deixar vestígios, afirmando em áudios vazados que "o lacre é fácil demais, tanto romper e botar de novo".

Origem da investigação e prisões

Tudo começou com uma denúncia anônima que levou os investigadores até o ex-policial militar Wanderlan Limeira de Sousa, na cidade de Patos, na Paraíba. Ele e dois parentes foram aprovados no Concurso Nacional Unificado (CNU) de 2024 para o cargo de auditor fiscal do trabalho, com salário superior a 22 mil reais. No celular da sobrinha dele, Larissa Neves, a polícia encontrou áudios que ajudam a explicar o esquema, detalhando a necessidade de subornar vigilantes e usar "bonecos".

Na última semana, a Polícia Federal cumpriu mandados de prisão em Alagoas, Paraíba e Pernambuco, prendendo dois professores suspeitos de resolver provas para candidatos. O delegado-geral de Alagoas foi alvo de busca e apreensão, reforçando a gravidade do caso.

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Evolução das fraudes e medidas de segurança

O advogado José da Silva Moura Neto, especialista em concursos públicos, ressalta que, embora as bancas tenham reforçado os protocolos de segurança, os métodos utilizados pelas quadrilhas também evoluíram. Ele explica que há casos de vazamento de provas, como um envolvendo o Cespe, onde uma quadrilha fazia a prova e repassava as respostas ao candidato. Hoje, esse tipo de operação está mais difícil porque as bancas dividiram etapas e reduziram o acesso integral ao material, mas as organizações se adaptam mudando alvos, utilizando tecnologia e contando com redes que atuam em diferentes estados.

Moura Neto também destaca que provas discursivas funcionam como barreira extra, dificultando a fraude porque exigem produção própria, mas não eliminam outras formas de manipulação.

Relembre o caso e consequências

Esse não é um caso novo. Em outubro do ano passado, a Polícia Federal deflagrou uma operação que revelou um esquema de fraudes em concursos públicos que funcionava como uma empresa familiar, com base em Patos, no Sertão da Paraíba. O grupo cobrava até R$ 500 mil por vaga e usava tecnologia para burlar os sistemas de segurança, incluindo dublês, pontos eletrônicos implantados cirurgicamente e comunicação em tempo real durante as provas. Os valores exigidos variavam conforme o cargo, e o grupo aceitava pagamentos em ouro, veículos e até procedimentos odontológicos.

De acordo com o relatório apresentado pela PF, o esquema era liderado por Wanderlan Limeira de Sousa, apontado como o principal articulador da quadrilha. Ele morreu em dezembro após sofrer com problemas de coagulação, segundo o Hospital Regional de Patos. A investigação indica que os crimes já aconteciam há mais de uma década, alcançando concursos da Polícia Federal, Caixa Econômica Federal, Polícias Civil e Militar, Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Banco do Brasil e o CNU.

Se a fraude for identificada, além da anulação das aprovações e exclusão dos candidatos, servidores já nomeados podem ser afastados e responder a processos disciplinares e penais. Os envolvidos podem ser enquadrados por crimes como fraude em concurso público, organização criminosa, falsificação de documentos e lavagem de dinheiro.

A Polícia Federal informou que, em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública e o Ministério da Gestão e Inovação, está ampliando os mecanismos de fiscalização para garantir mais segurança, transparência e integridade nos concursos realizados em todo o país, inclusive no CNU. Entre as ações estão provas identificadas página a página com códigos de barra específicos para cada candidato, detectores de metal e de ponto eletrônico em todas as salas, e atuação ampliada da PF, PRF e Polícias Militares na escolta e guarda das provas.