Relatório detalha cerco policial que culminou no Massacre de Paraisópolis
Seis anos após a ação policial que resultou na morte de nove jovens durante um baile funk em Paraisópolis, Zona Sul de São Paulo, um novo relatório reconstruiu minuciosamente a dinâmica da operação da Polícia Militar. O documento, intitulado Arquitetura do Cerco Policial, produzido pelo laboratório Agência Autônoma: Cidades, Direitos e Territórios da Universidade de Brasília (UnB), conclui que os agentes encurralaram intencionalmente os participantes do evento na Viela do Louro, um beco estreito e sem saída.
Manifestação por justiça e pedido de júri popular
Familiares das vítimas do chamado Massacre de Paraisópolis realizaram uma manifestação em frente ao Fórum Criminal Ministro Mario Guimarães, na Barra Funda, Zona Oeste de São Paulo, exigindo justiça. A Defensoria Pública de São Paulo, que representa parte das famílias, solicitou a inclusão do relatório no processo judicial e reforçou o pedido para que os doze policiais envolvidos sejam levados a júri popular por homicídio doloso, quando há intenção de matar.
Reconstrução cronológica da operação
O relatório, baseado na análise de vídeos gravados por moradores e imagens de câmeras de segurança, detalha a Operação Pancadão, realizada na madrugada de 1º de dezembro de 2019 durante o Baile da DZ7, que reunia cerca de cinco mil pessoas. A ação policial durou aproximadamente uma hora e seguiu uma estratégia em quatro etapas claras:
- Fechamento das esquinas: Viaturas bloquearam as saídas da rua Ernest Renan a partir das 3h40.
- Intensificação da repressão: Uso de bombas de efeito moral e relatos de agressões aumentaram o pânico.
- Fuga para o interior da quadra: A multidão, sem rotas de escape, foi empurrada para dentro da comunidade.
- Violência concentrada na Viela do Louro: Policiais se posicionaram na entrada do beco, encurralando os jovens e resultando nas mortes.
O documento inclui mapas cronológicos que mostram o deslocamento das viaturas e a concentração de civis, evidenciando o cerco progressivo. Entre 4h00 e 4h07, a violência se intensificou na viela, com bloqueio da saída e uso de artefatos. Os corpos das nove vítimas foram retirados entre 4h35 e 4h50.
Conclusões do estudo e contradições com a versão policial
Segundo Paulo Tavares, coordenador da Agência Autônoma, a análise espacial-temporal demonstra que a ação foi orquestrada e coordenada, contrariando a versão da PM de que se tratava de uma operação de dispersão. "A maneira pela qual a operação policial ocorreu mostra que houve uma intencionalidade e racionalidade no processo de cerco e de encurralamento. Não foi um efeito colateral", afirmou Tavares. Ele destacou que a configuração urbana de Paraisópolis, com ruas estreitas e a Viela do Louro em ponto baixo, contribuiu para o acúmulo de pessoas e as mortes por asfixia.
Processo judicial e versões conflitantes
Doze policiais respondem pelo episódio. O inquérito da Polícia Civil concluiu que cometeram homicídio e lesão corporal culposos (sem intenção), enquanto o Ministério Público sustenta que devem responder por homicídio por dolo eventual (assumindo o risco de matar). A expectativa é que a Justiça decida até julho se os réus serão pronunciados para júri popular. Os policiais, que respondem em liberdade, alegam em suas defesas que as mortes foram acidentais, resultantes de um tumulto causado por suspeitos de roubo que atiraram contra as viaturas.
Vítimas e impacto social
As nove vítimas, com idades entre 14 e 23 anos, morreram principalmente por asfixia, exceto uma por traumatismo. A tragédia, que completa seis anos, continua a mobilizar familiares e organizações de direitos humanos, que exigem responsabilização e mudanças nas práticas policiais. O relatório reforça a tese de que o conhecimento prévio do território pela polícia poderia ter levado a uma estratégia diferente, evitando a tragédia.



