Vazamento da Interpol expõe abuso da Rússia contra críticos no exterior
Vazamento da Interpol revela abuso russo contra opositores

Um vazamento de milhares de arquivos da Interpol, fornecidos por um denunciante, revelou pela primeira vez a extensão do aparente mau uso da organização policial internacional pela Rússia para atingir seus críticos no exterior. Os dados, analisados pelo Serviço Mundial da BBC e pelo portal francês Disclose, indicam que Moscou tem utilizado as listas de pessoas procuradas da Interpol para solicitar a prisão de adversários políticos, empresários e jornalistas, sob acusações de crimes.

Abuso sistemático e falta de transparência

A análise dos documentos vazados mostra que, ao longo da última década, a unidade independente de reclamações da Interpol, a Comissão de Controle dos Arquivos (CCF), recebeu mais queixas relacionadas à Rússia do que sobre qualquer outro país. Especificamente, as queixas contra os pedidos de Moscou foram três vezes mais numerosas do que as do segundo colocado no ranking, a Turquia. Além disso, os dados revelam que as queixas levaram ao cancelamento de mais casos da Rússia do que de qualquer outra nação, com pelo menos 400 alertas ou difusões vermelhas anulados nos últimos anos.

Impacto devastador nas vítimas

O empresário russo Igor Pestrikov é um exemplo emblemático desse abuso. Após fugir da Rússia em junho de 2022, quatro meses após a invasão da Ucrânia, ele descobriu que seu nome havia sido incluído em uma lista de difusão vermelha da Interpol. Pestrikov relata que sua vida foi transformada: "Quando você recebe um alerta vermelho, sua vida muda completamente". Ele enfrentou bloqueios em contas bancárias, dificuldades para alugar imóveis e um constante estado de nervosismo, obrigando sua família a se mudar para outro país por segurança.

Pestrikov acredita que sua inclusão na lista foi motivada por sua recusa em obedecer a ordens do governo russo para suspender vendas internacionais de produtos de sua empresa, a Fábrica de Magnésio de Solikamsk, antes da invasão da Ucrânia. Ele considerou isso uma "questão moral", evitando envolvimento indireto na produção militar. Após quase dois anos na lista de procurados, a CCF decidiu que seu caso era predominantemente político, cancelando o pedido de detenção.

Mecanismos de controle ineficazes

Após a invasão da Ucrânia, a Interpol implementou verificações adicionais sobre a atividade russa para prevenir abusos. No entanto, os documentos vazados sugerem que essas medidas não foram suficientes. Advogados especializados, como Ben Keith e Yuriy Nemets, argumentam que a Interpol tem um problema específico com a Rússia e que as tentativas de evitar abusos não tiveram sucesso. Nemets destaca: "Não é difícil burlar o sistema", citando casos de cidadãos russos opostos à guerra que foram alvo de pedidos de prisão por motivos políticos.

Comunicações informais e perseguição a jornalistas

Os arquivos vazados também incluem milhares de mensagens trocadas entre países através do sistema da Interpol, revelando um caminho menos formal para rastrear pessoas. Por exemplo, a Rússia enviou uma mensagem às autoridades da Alemanha e da Armênia solicitando informações sobre o jornalista Armen Aramyan, que fugiu do país após ser condenado por cobrir protestos pró-Navalny. Essa prática vai contra as diretrizes da Interpol, que proíbem o uso de seus canais para tais fins.

Preocupações internas e relaxamento de restrições

Relatórios internos da Interpol, de 2024 a 2025, expressam preocupação crescente com o abuso consciente dos sistemas pela Rússia. Um alto diretor da organização manifestou "sérias preocupações" sobre violações flagrantes das normas. Apesar disso, cerca de 90% dos pedidos russos ainda eram aprovados nas verificações iniciais em 2024, e a CCF cancelou apenas metade dos casos contestados.

O denunciante revelou que, em 2025, a Interpol eliminou silenciosamente certas medidas adicionais contra a Rússia, embora o alcance dessa redução não seja claro. A organização se recusou a comentar, citando normas rigorosas de processamento de dados.

Chamado por maior ação

Advogados como Ben Keith defendem que países que abusam persistentemente do sistema deveriam ser suspensos temporariamente. Igor Pestrikov teme que, sem mudanças, a Rússia possa continuar a perseguir críticos globalmente: "Isso permite que eles persigam você ainda mais, em todo o mundo". A Interpol, em resposta, afirmou que prioriza a prevenção de abusos e segue seu regulamento, que proíbe uso para fins políticos, mas a falta de transparência continua a ser um desafio.