Um em cada três cigarros vendidos no Brasil é ilegal, movimentando R$ 10 bilhões
Um terço dos cigarros no Brasil é ilegal, movimenta R$ 10 bi

Um terço dos cigarros consumidos no Brasil é ilegal, revelando mercado clandestino bilionário

Um levantamento inédito realizado pela Ipsos-Ipec expõe uma realidade alarmante: 31% dos cigarros vendidos no Brasil são contrabandeados ou produzidos de forma irregular. Isso significa que aproximadamente um em cada três cigarros consumidos pelos brasileiros é ilegal, alimentando um mercado clandestino que se expandiu consistentemente nos últimos anos.

Movimentação financeira e impacto na arrecadação pública

Apenas em 2025, facções criminosas colocaram em circulação cerca de 32 bilhões de unidades de cigarros ilegais, movimentando um montante estimado em R$ 10 bilhões. Desse total, impressionantes R$ 8,5 bilhões correspondem à evasão fiscal, evidenciando um grave prejuízo para os cofres públicos e uma concorrência desleal com o mercado formal.

O cenário atual mostra que a terceira marca de cigarro mais vendida no Brasil é contrabandeada do Paraguai: a Eight, que detém cerca de 10% do mercado brasileiro. A lógica por trás desse negócio ilegal é simples e lucrativa: trata-se de uma mercadoria de alta demanda, fácil transporte, ampla capilaridade de distribuição e margens elevadas, especialmente quando associada à sonegação de impostos.

Crescimento das apreensões e sofisticação das operações criminosas

Dados da Receita Federal reforçam o avanço da ilegalidade no setor. Entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, o valor das apreensões de cigarros ilegais aumentou 22%. Apenas em janeiro deste ano, foram retidos R$ 61,5 milhões em cigarros ilegais em todo o território nacional, um montante que destaca não apenas a escala do problema, mas também o grau de organização e sofisticação dessas operações clandestinas.

Especialistas alertam que o contrabando de cigarros ajuda a estruturar uma rede logística que posteriormente é utilizada para outros produtos ilegais. Rotas clandestinas de transporte, depósitos e canais informais de distribuição acabam servindo também para mercadorias como:

  • Bebidas falsificadas
  • Eletrônicos piratas
  • Perfumes contrabandeados

Uma vez montada, essa engrenagem reduz custos e riscos para as organizações criminosas, que passam a diversificar suas atividades e ampliar seus lucros de forma exponencial.

Impacto ampliado na economia ilegal brasileira

O avanço do contrabando de cigarros ocorre dentro de um cenário mais amplo de expansão da economia ilegal no Brasil. Levantamento do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP) aponta que as perdas provocadas por contrabando, falsificação e pirataria somaram R$ 473,2 bilhões em 2025, o maior valor já registrado na série histórica.

Este montante inclui:

  1. R$ 326,3 bilhões em prejuízos diretos da indústria
  2. R$ 146,8 bilhões em evasão fiscal

Em comparação com 2020, quando o prejuízo estimado era de R$ 288 bilhões, o avanço em apenas cinco anos foi de 64%, representando um salto superior a R$ 185 bilhões. Em uma década, as perdas mais que quadruplicaram, consolidando o mercado ilegal como um dos principais vetores de desequilíbrio econômico e concorrência desleal no país.

Setores mais afetados pela economia clandestina

O impacto dessa engrenagem ilegal se espalha por diversas cadeias produtivas, com prejuízos bilionários em múltiplos setores da economia brasileira. Entre os segmentos mais afetados estão:

  • Vestuário: R$ 87,3 bilhões em perdas
  • Bebidas alcoólicas: R$ 83,2 bilhões em prejuízos
  • Combustíveis: R$ 29 bilhões impactados
  • Higiene pessoal: R$ 21 bilhões em danos
  • Perfumaria e cosméticos: R$ 21 bilhões afetados
  • Defensivos agrícolas: R$ 20,6 bilhões em prejuízos

Também aparecem na lista setores como ouro (R$ 12,7 bilhões), TV por assinatura (R$ 12,1 bilhões), óculos (R$ 11,4 bilhões) e, evidentemente, cigarros, com perdas estimadas em R$ 10,5 bilhões.

Edson Vismona, presidente do FNCP, afirma: "Estamos diante de um problema estrutural que vai muito além dos efeitos econômicos. A combinação de alto lucro e baixo risco tem ampliado o interesse das organizações criminosas pelo mercado ilegal, que hoje funciona como uma importante fonte de financiamento dessas redes".

A situação revela um ciclo vicioso onde o contrabando de cigarros não apenas causa prejuízos diretos, mas também fortalece estruturas criminosas que depois se expandem para outras atividades ilegais, criando um desafio complexo para as autoridades e para a sociedade brasileira como um todo.