Operação policial no Vidigal deixa turistas ilhados e repercute mundialmente
Uma intensa operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro realizada na segunda-feira, dia 20, resultou em mais de 200 turistas ilhados no topo do Morro Dois Irmãos e na interdição da Avenida Niemeyer. A ação, que ocorreu na comunidade do Vidigal, tinha como objetivo principal a prisão de chefes do Comando Vermelho (CV) da Bahia, incluindo o traficante foragido Ednaldo Pereira Souza, conhecido como Dadá.
Repercussão internacional ampla e diversificada
O episódio ganhou imediata repercussão na imprensa internacional, com cobertura detalhada de veículos de comunicação da Europa, Estados Unidos e outros países da América do Sul. A dimensão global do caso destacou não apenas a violência envolvida, mas também os impactos significativos no turismo local e as implicações políticas internacionais.
Na França, o jornal Le Parisien relatou que turistas passaram mal e alguns chegaram a desmaiar durante o período em que permaneceram ilhados no alto do Morro Dois Irmãos. A publicação enfatizou o contraste marcante entre a paisagem turística deslumbrante e a violência que eclodiu na comunidade. A agência de notícias francesa AFP entrevistou turistas e moradores presentes no local, coletando relatos emocionantes sobre a situação.
Renan Monteiro, responsável pela operadora Na Favela Turismo, revelou à AFP: "Tínhamos mais de 200 pessoas fazendo a trilha, 70% deles eram turistas estrangeiros". Monteiro expressou preocupação com as consequências negativas para o turismo, lamentando que "sempre que ocorre uma operação na favela, isso é divulgado no mundo inteiro, o que impacta diretamente aqui no resultado que a gente vem obtendo com o turismo".
Cobertura detalhada em diversos países
No Reino Unido, a BBC detalhou cenas de pânico vividas no Rio de Janeiro, citando relatos de turistas que buscaram abrigo durante a operação. A emissora descreveu um vídeo compartilhado nas redes sociais que mostrava o grupo sentado no chão enquanto o sol nascia, com um helicóptero da polícia sobrevoando o local e tiros sendo ouvidos à distância.
Na Itália, a Agenzia Nova divulgou vídeos gravados no local e destacou que dezenas de turistas ficaram bloqueados durante a ação policial. Na Argentina, o jornal Clarín relatou que cerca de 200 turistas ficaram presos em uma favela do Rio em meio ao tiroteio entre a polícia e traficantes do Comando Vermelho.
Análises políticas e comparações regionais
Nos Estados Unidos, o portal Sociedad Media, com sede em Miami, deu um enfoque político à operação, relacionando o episódio no Rio a discussões em curso no governo americano sobre a classificação dos grupos criminosos brasileiros Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas estrangeiras. Segundo a matéria, a ação no Vidigal reforçaria argumentos de autoridades dos EUA sobre o alcance e o impacto internacional dessas organizações criminosas.
Outro veículo norte-americano, The Latin Times, abordou o caso destacando o impacto da violência sobre o turismo na América Latina. A publicação relacionou o episódio no Rio de Janeiro a um ataque ocorrido no mesmo dia no México, que deixou uma pessoa morta em uma área turística de Teotihuacan. Segundo a análise, os dois casos evidenciam o "frágil equilíbrio" entre a atratividade turística da região e os desafios de segurança persistentes.
Detalhes da operação policial
A operação foi realizada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público da Bahia, com participação da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core). O principal alvo era o traficante Dadá, foragido desde 2024, quando conseguiu escapar da prisão com outros 15 detentos e fugiu para a comunidade da Rocinha, também na Zona Sul do Rio.
Moradores do Vidigal relataram tiroteio intenso pela comunidade no início da manhã de segunda-feira. Durante a operação, criminosos interditaram a Avenida Niemeyer, que conecta São Conrado ao Leblon, utilizando um ônibus enviesado e contêineres da Comlurb como barricadas.
Enquanto isso, no Morro Dois Irmãos - famoso ponto turístico conhecido pela vista privilegiada para ver o amanhecer - centenas de turistas ficaram presos devido ao tiroteio. Para descer, o grupo precisaria fazer uma trilha que tem início no Vidigal, o que se tornou impossível durante o confronto. Eles só conseguiram descer quando o embate entre traficantes e policiais foi controlado.
Investigacões e desfecho da operação
Segundo as investigações, Dadá havia alugado uma casa no Vidigal para uma festa com familiares e amigos durante o feriadão. Ele vinha sendo monitorado pelo Ministério Público da Bahia, que identificou sua ida à comunidade vizinha à Rocinha e notificou a Polícia do Rio. As diligências apontaram que Dadá é chefe da facção criminosa Primeiro Comando de Eunápolis (PCE), com atuação nas regiões de Caraíva e Trancoso.
Durante a operação, três pessoas foram presas: duas em flagrante e uma mulher por força de mandado de prisão. No entanto, Dadá conseguiu fugir por uma passagem secreta na residência onde estava, deixando para trás a família. A fuga do principal alvo representa um revés nas investigações, mas as autoridades continuam em busca do traficante foragido.
O caso do Vidigal expõe as complexas dinâmicas entre segurança pública, turismo e criminalidade organizada no Rio de Janeiro, enquanto ressoa internacionalmente como um exemplo dos desafios enfrentados por destinos turísticos em regiões com presença de grupos criminosos.



