Roteirista iraniano indicado ao Oscar é preso após assinar manifesto contra regime
Roteirista indicado ao Oscar preso no Irã por manifesto crítico

Roteirista indicado ao Oscar é preso no Irã após assinar manifesto crítico ao regime

O cenário cinematográfico internacional foi surpreendido por uma notícia que mistura arte, política e repressão. Mehdi Mahmoudian, roteirista iraniano cujo trabalho no longa Foi Apenas Um Acidente lhe rendeu uma indicação ao Oscar, foi preso neste sábado, dia 31 de janeiro. A detenção ocorre em um contexto de crescente tensão política no Irã, onde protestos contra a crise econômica têm sido respondidos com violência estatal.

Manifesto atribui responsabilidade por atrocidades a líder supremo

A prisão de Mahmoudian está diretamente ligada à sua assinatura em um manifesto público que critica duramente o regime dos Aiatolás. O documento, assinado por 17 pessoas, atribui a principal responsabilidade por estas atrocidades a Ali Khamenei, o líder da República Islâmica, e à estrutura repressiva do regime. Esta declaração ocorre em meio a relatos de milhares de manifestantes mortos pelas forças governamentais nos últimos meses.

Além de Mahmoudian, outros dois signatários do manifesto, Vida Rabbani e Abdullah Momeni, também foram detidos. As autoridades iranianas mantêm um silêncio absoluto sobre as acusações específicas contra os presos e não informaram para onde eles foram levados, aumentando as preocupações sobre suas condições e possíveis violações de direitos humanos.

Filme indicado ao Oscar reflete realidade política iraniana

Foi Apenas Um Acidente, o filme que trouxe Mahmoudian para o centro das atenções globais, é uma produção carregada de significado político. Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, a obra concorre ao Oscar nas categorias de melhor longa-metragem internacional e melhor roteiro. A cerimônia da Academia está marcada para o dia 15 de março, em Los Angeles.

A narrativa do filme segue um grupo de ex-prisioneiros políticos iranianos que enfrentam o dilema moral de decidir se devem ou não se vingar de um homem que acreditam tê-los torturado durante o período de detenção. Esta trama ecoa profundamente a realidade vivida por muitos ativistas no país, incluindo o próprio Mahmoudian.

Trajetória de ativismo e encontro na prisão com cineasta renomado

Mehdi Mahmoudian não é apenas um roteirista talentoso, mas também um jornalista e ativista dos direitos humanos com histórico de confronto com o regime iraniano. Sua trajetória política o levou a conhecer o renomado diretor Jafar Panahi em circunstâncias dramáticas: ambos estavam detidos na mesma prisão por posicionamentos considerados anti-regime.

Após ser liberado, Mahmoudian recebeu um convite especial de Panahi para colaborar no roteiro de Foi Apenas Um Acidente. O roteirista utilizou sua experiência pessoal atrás das grades para refinar os diálogos e dar autenticidade emocional ao texto, criando uma obra que ressoa com a luta por justiça e liberdade no Irã.

Esta prisão ocorre em um momento crucial, poucas semanas antes da cerimônia do Oscar, levantando questões sobre como a comunidade cinematográfica internacional responderá a este ato de repressão contra um de seus indicados. A situação ilustra como, no Irã, a expressão artística e o ativismo político frequentemente se entrelaçam de maneira perigosa, com consequências reais para aqueles que ousam desafiar o status quo.