Mercado clandestino de canetas emagrecedoras ilegais movimenta milhões na fronteira
Uma investigação do programa Fantástico revelou os detalhes do mercado clandestino de canetas emagrecedoras ilegais que opera entre o Paraguai e o Brasil. O comércio desses produtos, proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), preocupa autoridades dos dois países e movimenta valores milionários, com estimativas que chegam a R$ 600 milhões.
Venda aberta e estratégias de marketing improvisadas
Em Ciudad del Este, no Paraguai, a oferta ocorre à luz do dia, sem qualquer discrição. Ambulantes abordam potenciais compradores diretamente nas calçadas, utilizando até mesmo dancinhas para promover as substâncias vetadas no território brasileiro. Laboratórios locais promovem os produtos com anúncios improvisados, enquanto guias especializados conduzem consumidores até farmácias paraguaias e orientam sobre o transporte clandestino para o Brasil.
Estrutura organizada de contrabando
Os contrabandistas montaram uma estrutura bem organizada para revender os produtos no Brasil. Um comerciante paraguaio entrevistado pela reportagem explicou o mecanismo: "Tem lá em São Paulo. E aí no caso, você pega em São Paulo. Fechamos aqui, você deixa 30% e depois paga tudo onde você vai retirar". Intermediadores e vendedores mantêm grupos fechados em aplicativos de mensagem, onde a entrada custa cerca de R$ 100, para alertar sobre operações policiais e barreiras na fronteira, oferecendo rotas alternativas em tempo real.
Números alarmantes e riscos à saúde pública
Os números demonstram a dimensão do problema. Em 2024, a Receita Federal apreendeu 2.500 unidades de canetas emagrecedoras. No ano anterior, foram 30 mil unidades apreendidas, com carga avaliada em mais de R$ 30 milhões. Pesquisas indicam, contudo, que apenas 5% do material que entra ilegalmente no país é interceptado pelas autoridades.
O caso de Kellen Oliveira, de 42 anos, acendeu um alerta ainda maior. Após usar uma caneta comprada no Paraguai, ela desenvolveu a síndrome de Guillain-Barré, uma doença autoimune que pode causar paralisia, exigindo internação hospitalar. Felipe Henning, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia, alerta: "Esses efeitos colaterais podem ser tão severos que podem levar o paciente ao óbito".
Posicionamento das autoridades e desafios fronteiriços
A Anvisa reforçou que medicamentos sem registro no Brasil não podem ser comercializados, permitindo apenas importação excepcional com prescrição médica para tratamento pessoal. A agência de vigilância sanitária paraguaia já emitiu alertas sobre a tirzepatida, princípio ativo presente em muitas canetas ilegais, destacando riscos graves devido à falta de verificação de composição e qualidade.
Luciano, do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras, aponta que o combate efetivo exige homogeneização de protocolos entre as agências reguladoras do Brasil e do Paraguai, além do reforço nas áreas de fronteira. A delegada Milena ressalta que envolvimento com produtos falsificados ou corrompidos pode configurar crime contra a saúde pública, com penas de 10 a 15 anos de reclusão.
Para as autoridades, o contrabando de canetas emagrecedoras já se configura como um problema de saúde pública, com riscos amplificados pelo uso sem orientação médica e pela aquisição em fontes duvidosas, onde a qualidade e a segurança dos produtos não são garantidas.